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Quem tem medo (ou raiva) de Game of Thrones?


Obra: Game of Thrones
Formato: Série de TV
Ano: 2011-2019
País de Origem: EUA
Produtora: HBO

Ah... Game of Thrones! Raras vezes testemunhamos um fenômeno de proporções tão épicas acontecendo na cultura pop contemporânea. Seja por meio da saga de livros escrita por George R.R. Martin, seja (principalmente) através da série televisiva, praticamente todo mundo já ouviu falar dessa história. Você pode até não ter lido ou assistido nada a respeito dela, mas é impossível não ter se deparado com memes, postagens de fãs apaixonadas, vídeos com trechos e discursos impactantes e, eventualmente, com alguns spoilers. Nós da ACPop, inclusive, já abordamos a série aqui, na nossa estreia. Mas, desta vez retorno ao universo mítico de Westeros não para analisar um personagem ou episódio específico. O objetivo deste texto é traçar algumas análises acerca dos comportamentos dos fãs e dos haters de GOT (Game of Thrones).

O último domingo foi marcado pela estreia da última temporada da série. Por toda a parte nas redes sociais as pessoas estavam em polvorosa. Vi dezenas de textos, fotos e vídeos de fãs ansiosos pelo primeiro episódio da oitava temporada. Vi também algumas pessoas que declaravam desinteresse pela série, tratando-a com desdém e caçoando dos fãs. O mais interessante dessa situação toda foi observar que: parte das pessoas que criticava a série e seus fãs se achava genuinamente diferente e até superior por não gostar de GOT em relação àqueles que gostam. No entanto, no fim das contas, pessoas que odeiam ou que amam GOT não são tão diferentes assim. Elas têm pelo menos uma coisa em comum: seus comportamentos, quer elas percebam ou não, são regidos por regras similares de conformidade social.

"Quando a neve cai e os ventos brancos sopram, o lobo solitário morre, mas a matilha sobrevive."
(Ned Stark)
Claro, ninguém é obrigado a amar a série. Há quem não tenha a mínima vontade de começar a vê-la e há quem a viu mas não a achou grande coisa e tudo bem por isso. Mas odiar GOT e tirar sarro de quem a ama não coloca os haters em posições especiais. Vejamos porquê.

Todos nós, seres humanos, temos a necessidade inata de nos relacionar com outros indivíduos, fazer parte de grupos, ser reconhecido entre nossos semelhantes. Isso é tão verdade que a ausência de vínculos sociais pode levar ao adoecimento extremo. E é justamente por sermos seres sociais que estamos sujeitos ao fenômeno da conformidade social.


A conformidade social foi bem estudada e testada experimentalmente por nomes como Solomon Asch e Stanley Milgram. Quer percebamos ou não (e na maioria das vezes não percebemos), estamos o tempo todo nos comportando conforme grupos e regras sociais estabelecidas pelos outros. Essas regras nem sempre são explícitas como normas dadas em alguma lei e muitas vezes vêm travestidas de comportamentos observáveis. Veja o vídeo abaixo: é suficiente que alguns membros de um grupo ajam de uma determinada forma para que outros membros também ajam de acordo. 


Isso acontece porque a evolução programou nossos cérebros para agirmos conforme a maioria, visto que esse comportamento de bando foi e é útil para nossa sobrevivência enquanto espécie - embora o tiro saia pela culatra em muitas situações ao agirmos de acordo com a maioria. Sejam quais forem os grupos dos quais fazemos parte, estamos direta e indiretamente buscando aprovação deles. 

Se faço uma postagem elogiando episódios de GOT e recebo curtidas e comentários positivos, meu comportamento de postar elogios sobre GOT será reforçado por fãs de GOT. Mas o que dizer dos haters? Por que expressam sua raiva pela série e até mesmo pelos fãs dela?

Quando não fazemos parte de um grupo que tem muitos membros e que está em evidência, geralmente nos comportamos de duas formas: a) tentamos fazer parte desse grupo para obter reconhecimento e outras recompensas. Caso não consigamos nos inserir nesse grupo, então: b) procuramos a inserção e a aceitação em outro tipo de grupo, inclusive em grupos que ataquem o anterior. Ao não sermos bem sucedidos em um grupo específico, às vezes isso ocorre devido a uma inabilidade pessoal, a um padrão comportamental que está em dissonância com o grupo em questão, a um requisito que não cumprimos para fazer parte dele, etc. Em alguns casos, o sujeito "rejeitado" pelo grupo reconhece suas próprias "deficiências". Em outras situações isso não acontece e ao invés de pensar "se não fui aceito, há algo de errado comigo", ele pensa "se não fui aceito, há algo errado com o grupo".

A respeito da série aqui discutida, muitas pessoas a criticam e criticam seus fãs; logo depois recebem curtidas, comentários e outros reforçadores de outras pessoas que também detestam GOT. No fundo os processos são muito semelhantes entre quem ama e quem odeia a série - claro que há outras inúmeras variáveis em jogo (que podemos inclusive discutir nos comentários). Mas, se tratando dos comportamentos aqui enfocados, podemos observar que, embora suas topografias sejam distintas, existe uma semelhança nas suas funções. 

Geralmente só atacamos um grupo se houver alguma possibilidade de acolhida, proteção e revide dentro de outro grupo. Dificilmente uma pessoa que odeia GOT atacaria a série se não houvesse outros iguais a ele, outras pessoas que fornecessem recompensas pelas críticas emitidas e possibilidade de esquiva dos aversivos fornecidos pelos fãs. 

Seja você um fã ou um hater, o inverno está chegando... e o texto está acabando. E se você não entendeu o que eu quis dizer com isso, talvez seja hora de começar a assistir Game of Thrones. Ou não, você decide. Afinal, tem gosto e grupo pra tudo. 

Elton SDL

Se é pop, a gente analisa!

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