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Como o Monstro do Pântano venceu a depressão



Obra: A Saga do Monstro do Pântano
Formato: Quadrinhos
Ano: 1983-1987
Roteiro: Alan Moore
Arte: Stephen Bissette, John Totleben
Editora: DC Comics/Vertigo Comics



Imagine uma criatura humanoide imensa, toda verde, feita de folhas, galhos e raízes. Ela saiu das profundezas de um pântano escuro e sujo, dotada de uma força descomunal e de um poder assombroso para se comunicar com todas as formas de vida vegetal e manipulá-las a seu favor. Você teria medo dessa criatura se topasse de cara com ela? Pois não tema! Apesar da aparência aterradora, o Monstro do Pântano de monstro não tem nada, ou muito pouco. Diferente do que pode parecer num primeiro momento, A Saga do Monstro do Pântano não conta a história de um vilão maligno, mas sim de um super-herói... ou quase isso - o termo "anti-herói" seria mais apropriado.


O Monstro do Pântano é um personagem criado pelo escritor Len Wein e pelo artista Bernie Wrightson na década de 70. Mas foi nos anos 80 que o proeminente autor Alan Moore revitalizou o grandalhão verde, durante uma era que revolucionou as histórias em quadrinhos mainstream norte-americanas - a chamada Invasão Britânica das Histórias em Quadrinhos. Quando Moore assumiu os roteiros da revista, o Monstro do Pântano recebeu uma releitura muito mais madura, profunda, filosófica e psicológica. Logo, a obra foi lançada a altos patamares e alcançou o status de uma das pedras fundamentais dos quadrinhos modernos. Se você já leu a HQ, certamente sabe do que estou falando. E se não leu e não deseja tomar um baita spoiler, então os parágrafos seguintes não são para você. Sério, o spoiler é grande, enorme mesmo, da proporção da obra. Não se importa com isso e quer seguir a leitura mesmo assim? Tudo bem, lá vamos nós! Mas eu avisei.




A história original de O Monstro do Pântano relata a saga de Alec Holland, um cientista que sofre um acidente em seu laboratório botânico. Após ser atingido por compostos químicos vegetais e morrer nas águas de um pântano próximo ao seu local de trabalho, ele ressurge como uma criatura dotada de poderes conectados ao mundo verde. Entre aventuras, desventuras, socos, pontapés, vilões maníacos e missões com o objetivo de salvar o mundo, vemos o personagem em um grande embate pessoal. Seu maior objetivo é voltar a ser humano - é isso que o move, é isso que o faz seguir vivo. Afinal, ele é um homem aprisionado no corpo de uma planta... mas não para Alan Moore. Quando o escritor britânico reconstrói a história do Monstro do Pântano, ele presenteia seus leitores com uma revelação impactante. 

Na versão de Alan Moore, quando Alec Holland caiu no pântano, não sobrou nada de humano, exceto as memórias do cientista. Devido às substâncias químicas que encharcavam o corpo de Alec, o pântano acabou absorvendo as memórias de Alec e assumindo uma forma que misturava o corpo humano com a vegetação pantanosa. Mas Alec em si estava morto. O Monstro do Pântano não era Alec, não era um homem vivendo no corpo de uma planta, mas sim uma planta que pensava ser um homem. A descoberta sobre a própria origem é avassaladora para o monstro e muda todo o rumo da sua vida. Imagine ter toda sua vida construída com base na esperança de um dia voltar a ser o que era e descobrir que na verdade você nunca foi o que pensou ter sido. Imagine que tudo que você sabia sobre você, tudo o que pensava sobre si mesmo vem à tona como uma grande mentira. Imagine pensar ter sido um dia um homem, depois um monstro que pensava ter sido um homem e descobrir que no fim você é apenas uma planta que pensava ser um homem. Ao perceber que toda sua vida ruiu, o monstro se enfurece, entra numa grande tristeza e, isolado, torna-se "empantanado", nas palavras da HQ, ou, numa perspectiva da psicologia, podemos dizer que ele "entra em depressão". 





Já falamos sobre depressão antes aqui no site, usando a série Game of Thrones como pano de fundo para uma discussão analítico-comportamental sobre o modelo de desamparo aprendido. Para este texto, percorrerei por alguns parâmetros da ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso, uma ramificação das terapias comportamentais) no que diz respeito à depressão.

Na Saga do Monstro do Pântano, ao descobrir que nunca voltará a ser humana (porque na verdade nunca o foi) a criatura se recolhe no pântano e "hiberna" na forma vegetal, tornando-se uma grande massa disforme de folhas, raízes e musgo, perde a forma humanoide e sua vontade de lutar no mundo humano em prol de suas causas. Perde, em suma, suas poucas e únicas características que mais o aproximavam de ser um homem, embora sem sê-lo de fato. O monstro pensa: "Bem, já que sou um vegetal no fim das contas, vou me entregar a essa realidade e agir como um, vou vegetar". Isso nos faz lembrar com bastante ênfase de comportamentos apresentados por pessoas com depressão. Após vivenciar eventos aversivos, muitas pessoas param de sair de casa, de conversar com os outros, de ir ao trabalho, param até mesmo de fazer as coisas que mais lhes davam prazer. Muitas relatam se sentir exatamente como um vegetal, algo estático e quase sem vida, trancados em si mesmos, como se tivessem perdido o gosto por tudo, como se tivessem perdido a própria humanidade. Não seria exagero dizer que o personagem da história aqui abordada se sentiu exatamente da mesma forma.

O monstro pensava ser Alec e tinha esperanças de um dia voltar a ser totalmente humano. Depois descobre que nunca foi humano e por isso nunca poderá voltar a sê-lo. Entra em depressão, pois seu grande objetivo, sua grande motivação que o fazia viver e lutar, ruiu. Logo, ele não encontra outros objetivos, outros motivos pelos quais viver, outros reforçadores que façam a existência valer a pena. Porém, depois de um tempo "empantanado", o monstro encontra uma razão para voltar. Essa razão se chama Abigail Arcane. 





Abigail é uma amiga de longa data de Alec Holland. A amizade entre os dois perdura apesar da transformação de Alec na criatura verde e resiste até mesmo à grande descoberta sobre a real origem do monstro. Abigail, no entanto, nunca deixou de acreditar na humanidade dele, continuou se referindo a ele como Alec e não o abandonou, nem mesmo quando estava "empantanado". Em um dado momento da história, a criatura empantanada ouve os gritos desesperados de sua amiga. Ao ver que Abigail estava correndo risco de vida, ameaçada pelo Homem Florônico (não se enganem pelo nome aparentemente bobo, esse cara é mau, mau de verdade... vou nem contar o que ele faz na história), ele acaba retornando à forma humanoide anterior. Ao ver que a amiga precisa dele, a criatura descobre uma nova razão para viver, para lutar e para lidar com a dor. Essa forte amizade que, posteriormente evoluiria para um romance, foi de fundamental importância para que o Monstro do Pântano vencesse sua depressão. 

Um dos princípios da ACT, assim como para a Análise do Comportamento como um todo, é de que sentimentos e pensamentos, assim como comportamentos observáveis, são fruto de relações com o ambiente. O foco da ACT não é a mudança direta de sentimentos e pensamentos negativos, ao contrário do que algumas abordagens de reestruturação cognitiva fazem. O foco é a mudança das contingências reais e ambientais, de modo que os comportamentos que causam dor e sofrimento possam ser modificados. Comportamentos mais saudáveis e libertadores devem ser emitidos, mesmo em meio a dor, mesmo com sentimentos e pensamentos negativos permeando o sujeito. 

Para isso, lhe é ensinado a responder ao eventos externos (como fazer as coisas que lhe importam), enquanto cadeias de respostas privadas se sucedem (sejam elas aversivos ou não). O objetivo final é tornar o individuo menos sensível a tais eventos privados e mais sensível às reais contingências em vigor (TWOHIG, 2012).
Se clientes podem ser auxiliados a encarar seus eventos privados dessa forma, eles podem simplesmente observá-los sem tentar controlá-los. Eles podem então fazer progresso, indo ao encalço daquelas atividades e experiências que são úteis e que dão sentido a suas vidas. Essa perspectiva da análise do comportamento sobre eventos privados é o ponto central da Teoria da Aceitação e Compromisso da terapia de Hayes (DOUGHER; HACKBERT, 2003).

Aceitar sua condição e sua dor, mas apesar dela, lutar. Aceitar que a possibilidade de ser Alec está fechada, mas que muitas outras estão abertas. Aceitar que ainda há motivos para continuar e para viver, e firmar um compromisso com esses motivos. Aceitar, não de forma passiva, mas altiva, impetuosa, bravia, que mesmo como monstro, às vezes dolorido, às vezes triste por sua condição, há um papel importante a ser desempenhado, há uma missão a ser feita, há pessoas a quem ajudar, amar e ser feliz ao lado. O Monstro do Pântano aceita e se compromete com isso. Ele ainda sente a angústia de não poder ser homem, mas apesar dela, ele segue, pois percebe que o seu lugar não é escondido e isolado no meio do pântano, mas sim livre e ativo em meio aos outros homens. E no fim, é isso que importa. No fim, é isso que o torna verdadeiramente humano.

Elton SDL



REFERÊNCIAS

DOUGHER, Michael J.  e  HACKBERT, Lucianne. Uma explicação analítico - comportamental da depressão e o relato de um caso utilizando procedimentos baseados na aceitação. Rev. bras. ter. comport. cogn. [online]. 2003, vol.5, n.2 [citado  2018-12-07], pp. 167-184 . Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452003000200007&lng=pt&nrm=iso>. ISSN 1517-5545.

HAYES, S. C.; PISTORELLO, J. e BIGLAN, A. (2008) Terapia de Aceitação e Compromisso: modelo, dados e extensão para a prevenção do suicídio. Revista Brasileira de terapia comportamental e cognitiva. vol.10, n.1, pp. 81-104. ISSN 1517-5545.

TWOHIG, M.P. (2012) Acceptance and Commitment Therapy: Introduction. Cognitive and Behavioral Practice. doi: 10.1016/j.cbpra.2012.04.003


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