Header Ads

Motivação para lutar: você está buscando da forma certa?


Obra: Rocky
Formato: Filme
Ano: 1976
Roteiro: Sylvester Stallone
Direção: John G. Avildsen


"Por que a galinha atravessou a rua?" é uma das charadas mais antigas e populares do mundo, mas que nem sempre apresenta uma resposta fácil. Igual dificuldade temos quando colocamos esta questão ao tratar do comportamento humano. Por que fazemos o que fazemos? Ou ainda: por que não fazemos certas coisas que, apesar de necessárias, adiamos ou deixamos pela metade? (Ei! Deixa pra ver essa notificação do Whatsapp depois de terminar de ler este texto!) Uma das desculpas respostas mais comuns é: "Fiz tal coisa porque estava motivado" ou "Deixei de realizar algo porque estava sem motivação". Tais asserções não estão de todo erradas, mas a compreensão que circula no senso comum sobre o que é motivação geralmente se apresenta equivocada. 

Na charada que abre o texto podemos dizer que a galinha cruzou a rua porque teve vontade, porque quis e não é da conta de ninguém, deixa essa galinha fazer o que quiser, ô povo chato! O problema é que, para uma perspectiva analítico-comportamental da psicologia, estas respostas não são suficientes e não dizem muita coisa sobre as causas do comportamento. A Análise do Comportamento busca entender e explicar os comportamentos por meio da relação entre o indivíduo e o que ocorre no ambiente. Dizer que a galinha atravessou a rua porque teve vontade é uma resposta mentalista que busca elementos internos, como se a vontade fosse pura e intrinsecamente algo que "brota" ou "nasce" dentro do indivíduo sem relação nenhuma com seu meio externo. Além disso, configura-se como uma tautologia - isto é, uma resposta redundante que não chega a nenhuma conclusão. A Análise do Comportamento vai além em sua investigação. Então quando alguém diz que fez algo porque teve vontade, o analista do comportamento não se dá por satisfeito com essa resposta, como se a vontade fosse uma causa a priori, mas investiga o que ocorreu no ambiente do sujeito para que ele tivesse essa dita vontade.  

No clássico filme Rocky, Sylvester Stallone interpreta um boxeador amador, Rocky Balboa, que nunca teve oportunidade de viver do esporte e por isso precisa trabalhar como capanga para sobreviver. Certo dia, porém, eis que uma chance de ouro aparece no caminho do protagonista, uma chance que mudará inteiramente sua vida. Apollo Creed, o campeão mundial do boxe, desafia boxeadores amadores para o ringue. Caso o valente oponente encare Creed e saia vencedor dessa façanha, levará uma fortuna em dinheiro como prêmio, além da glória eterna por ter derrotado um peso pesado do esporte. Adivinhem só quem vai ser o oponente? Acertou quem pensou ROCKY BALBOA! Vencer o campeão mundial não vai ser tarefa fácil e Rocky sabe disso, afinal, Apollo Creed vinha de um campanha extensa sem nenhuma derrota, tem uma excelente equipe de empresários, marqueteiros, treinadores e patrocinadores; além disso, possui ótimos aparelhos e equipamentos que dão a ele uma preparação acima do nível de qualquer outro atleta. Por outro lado, Rocky é apenas um modesto lutador que treina num velho clube da esquina, como ele poderia vencer? Muitos diriam que um fator determinante para que Rocky aceitasse a luta e tentasse a vitória é a força de vontade - que é o mesmo que dizer que ele precisa de motivação. Será mesmo?


Rocky tinha todas as chances contra ele, tinha o descrédito dos apostadores, a zombaria dos vizinhos e ainda por cima ele era canhoto (algo que no boxe dá uma desvantagem enorme). Rocky tinha medo e provavelmente pouca vontade de levar uma surra homérica em rede nacional. Ainda assim, ele começou a se organizar e a se disciplinar dentro de um rigoroso sistema de treino. Mesmo sem equipamentos arrojados, mesmo com uma academia de luta simplória, Rocky passou a acordar todos os dias, em plena madrugada. Levantava, comia alguns ovos crus, vestia seu casaco e saía pelas frias ruas da Filadélfia correndo, levantado pneus gigantes, socando toneladas de carne no frigorífico do seu amigo, correndo atrás de galinhas para treinar velocidade, força e resistência. 

A antológica sequência de cenas de treino de Rocky

De onde o sonhador boxeador tirava tanta força e motivação? Como já dito anteriormente, não podemos esperar que a motivação simplesmente surja do nada. Rocky não pode simplesmente ficar esperando acordar um dia cheio de vontade para começar a treinar, sendo assim, vejamos o contexto relacional de Rocky com seu ambiente. Rocky vivia num pequeno quarto alugado, não tinha dinheiro para realizar seus sonhos e atender suas necessidades mais básicas, estava em um emprego ruim e... vejam só... tinha uma namorada! Sim, uma namorada cuja pessoa ele não queria decepcionar e a quem ele desejava dar uma melhor futuro enquanto parceiro. Rocky tinha motivos de sobra para se sentir motivado a lutar, não é mesmo? Em termos científicos chamamos a esses motivos de operações estabelecedoras. Operação estabelecedora é um termo definido por Keller e Schoenfeld, em 1950, e retomado por Jack Michael, em 1982, que diz respeito a uma condição ambiental que altera o valor da consequência de um comportamento, tornando-o menos ou mais provável de ocorrer. Mas calma! Vamos dar um exemplo: Já ouviu falar que o tempero da comida é a fome? É mais ou menos disso que estamos tratando. Ficar privado de descanso por muitas horas vai tornar o comportamento de dormir muito mais provável de acontecer, da mesma forma que ficar sem comer por horas vai tornar o alimento ainda mais desejável e provavelmente apetitoso. Quando estamos saciados, por outro lado, é bem mais provável que o sabor, o "desejo" pela comida mude e se torne menos atrativo. 

Um grande exemplo de como a privação dos reforçadores pode nos motivar a nos comportarmos em prol da obtenção deles foi testemunhado por mim no evento Ouricuri Caiçara (edição na mata) em 2017. No Ouricuri, passamos 9 dias numa mata fechada com recursos limitados, sem aparelhos tecnológicos, sem comida industrializada, apenas com feijão, arroz, carne seca e alguns utensílios básicos para a sobrevivência. Recordo bem que no primeiro dia, um dos membros do grupo se recusava a comer a comida que preparamos (feijão, arroz, farinha, carne seca, alguns legumes e frutas). Essa pessoa estava acostumada com uma vida de conforto ilimitado: compras no shopping, TV a cabo, celular de última geração e comidas fast-food. Portanto, torceu o nariz para a comida caseira da mata e foi dormir sem nada comer. No segundo dia, no entanto, qual foi minha surpresa ao ver a mesma pessoa devorando uma manga verde e bebendo caldo de feijão com avidez, deliciando-se como se aquilo fosse um verdadeiro banquete! Isso somente aconteceu porque a privação de comida no dia anterior foi forte. Tal privação tornou a comida disponível (por mais que a pessoa inicialmente não gostasse dela) extremamente reforçadora. Mas o que isso tem a ver com a história de Rocky Balboa?



Rocky estava privado de dinheiro, de boa moradia, de bons alimentos e de um conjunto de reforçadores que o propiciariam uma vida melhor ao lado da namorada e futura esposa. Por mais assustador que fosse enfrentar Apollo Creed era muito mais aversivo continuar no estado de privação que Balboa vinha vivenciando há um longo tempo. É aqui que dizemos que Rocky se sentiu motivado a lutar, não por conta de fatores hipotético s internalistas, mas por uma relação contingencial com seu ambiente externo e real. O mesmo não acontecia com Apollo Creed, o campeão mundial. Enquanto Rocky treinava duramente para o grande combate, Creed subestimava o oponente e gastava muito mais tempo se preocupando com a aparência, com marketing e com sua popularidade. Creed estava cheio de dinheiro e fama, colecionava vitórias inumeráveis e achava que seu adversário seria facilmente vencido. As operações estabelecedoras de Creed eram totalmente diferentes daquelas de Rocky. Creed não sofria as privações que o motivariam a treinar para a luta. E é justamente aqui que reside o perigo, não apenas para Creed, mas para todos nós.

É mais provável nos sentirmos motivados a buscar reforçadores quando estes estão ausentes. É provável, por exemplo, se dedicar aos estudos com todo gás porque se obteve uma reprovação na prova anterior ou porque os pais cortaram a mesada até que se tire uma nota 10. O aluno sentirá muito mais disposição para estudar e ser aprovado, pois só assim ganhará suas recompensas de forma imediata ou evitará punições. Mas e quando temos tudo na mão e ainda assim precisamos lutar? O aluno pode ter pais que o dão mesada e conforto, pode não sofrer com notas baixas, mas acaba relaxando, assim como Apollo Creed, porque subestima a necessidade de treino para a luta (que nesse caso é a prova, o vestibular, etc). Por ele não estar privado de reforçadores de forma imediata, acha que está tudo bem, acaba não enxergando as consequências a longo prazo e diminui a frequência dos estudos. Acontece que muitas das vezes, quando as operações estabelecedoras começam ou voltam a ocorrer, o aluno diz que não se sente disposto a estudar e que só o fará quando se sentir motivado. E fica esperando a tal motivação chegar para poder começar.

O que acabei de descrever acima acontece em nossas vidas nos mais diversos setores: nos estudos, no trabalho, nos relacionamentos amorosos... E o que devemos fazer? Já ouviu aquela frase que diz assim "Se está sem vontade de fazer, faça mesmo sem vontade"? Pois é! Seja no conforto ou no desconforto, seja com privação ou sem privação de recompensas, precisamos fazer o que temos que fazer. Precisamos treinar, precisamos lutar. Pois o ringue nunca para de soar, a luta nunca termina enquanto há vida - o que existe é apenas um breve intervalo entre um round e outro. Essa foi uma das lições mais valiosas que aprendi com o Ouricuri Caiçara. Viver, lutar e vencer exigem esforço, dedicação, disciplina, planejamento, coragem e ação.

Mas afinal, Rocky Balboa consegue ou não vencer Apollo Creed? Pensou que eu ia dar spoiler do final? Pensou errado, meu querido leitor! Você vai ter que assistir o filme para descobrir. E com isso, estou construindo uma operação estabelecedora privando você da resposta para que se sinta motivado a ver o filme.

A resposta da charada inicial, essa sim eu posso dar. Agora que estamos mais aptos para isso, pergunto novamente: "Por que a galinha atravessou a rua?" Podemos pensar em algumas possibilidades: Porque ela estava faminta e do outro lado havia comida; porque ela estava fugindo de um cachorro que queria devorá-la; porque seus pintinhos estavam lá do outro lado, sozinhos.

Gostou do texto de hoje? Em quais situações da sua vida você se encontra desmotivado e o que já tentou fazer para superar isso? Comenta aqui embaixo, vai ser um prazer conversar com você. Estamos preparando um conteúdo extra sobre o tema, mas é surpresa! Enquanto isso, pode sugerir outras obras, filmes, séries e livros. Afinal...

Se é pop, a gente analisa!

Elton SDL

REFERÊNCIAS

Miguel, C. F. (2000). O conceito de operação estabelecedora na análise do comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, vol. 16, nº 3, pp. 259-267.

Sampaio, J. dos R. (2009). O Maslow desconhecido: uma revisão de seus principais trabalhos sobre motivação.Revista de Administração, vol. 44, nº 1, pp. 5-16.

Skinner, B. F. (1953/2003). Cap. 9 – Privação e saciação. In: ____, Ciência e Comportamento Humano. 11ª ed. São Paulo, Martins Fontes, pp. 155-175.

Skinner, B. F. (1974). Cap. 10 – O mundo interior da motivação e da emoção. In: ____, Sobre o Behaviorismo. São Paulo, Cultrix, pp. 129-143.

Todorov, J. C. & Moreira, M. B. (2005). O conceito de motivação na psicologia. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, vol. 7, nº 1, pp. 119-132.



Nenhum comentário