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Tudo está melhor do que parece (mas eu não vejo graça em nada).


Obra: Melhor do que parece
Formato: Música
Banda: O Terno
Disco: Melhor do que parece
Ano2016
Genero: Rock, MPB
Produção: Gui Jesus Toledo e O Terno



Não é de hoje que a banda O Terno vez envolvendo ouvidos e conquistando a ternura de muita gente por aí. O grupo paulistano surgiu em 2012 apostando em um som novo que ousou ir atrás do retrô, fazendo referências a bandas psicodélicas do porte de Os Mutantes e ao que de melhor nossa MPB produziu. Não por menos despontou como uma das promessas do rock nacional, recebendo elogios rasgados de ninguém menos ninguém mais que Tom Zé. 
Em 2016 o trio lançou seu álbum mais recente, "Melhor do que parece". Hoje falaremos sobre a faixa que dá nome ao disco, mas como o artigo de hoje lida com música não podemos ficar somente na leitura, precisamos também ouvir! Então, se você ainda não conhece a música (ou se conhece também), dá play no vídeo abaixo, mergulha no som e curte a letra. A gente volta já já. 



Feita nossa apreciação sonora, vamos à letra:

Melhor Do Que Parece
(Tim Bernardes)

Eu ando muito insatisfeito
Nada me agrada mais
Eu não consigo ouvir um disco
Ou ver um filme e
Um livro eu claramente não vou ler

Vou procurar em todo canto até
Achar onde eu perdi
Minha vontade, o meu prazer de conseguir
E a paciência que eu preciso para curtir

Eu tenho achado tudo chato, tudo ruim
Será que o chato aqui sou eu?
Será que fiquei viciado em novidade
E agora o tédio me enlouqueceu?

Tudo está melhor do que parece
Eu olho e vejo tudo errado
Faz tempo que está tudo certo



Se você se identificou com a letra da canção, não se preocupe. Afinal, quem nunca teve um dia assim alguma vez na vida? Aqueles dias em que o tédio bate com "T" maiúsculo e nada parece nos satisfazer. Você pode ter nas mãos a melhor comida, a melhor série, o melhor livro, pode até passar o Cirque du Soleil na porta da sua casa que você vai continuar com aquela cara de... "nhé". Mas por que isso acontece?

A música "Melhor do que parece" fala sobre uma pessoa na situação acima descrita, uma pessoa que anda achando tudo chato, tudo sem graça. Se traduzirmos os sentimentos descritos na música para uma linguagem analítico-comportamental, podemos dizer que os livros, filmes e discos que outrora tinham uma função reforçadora para o sujeito não estão mais desempenhando esse papel. É provável que ao ler um livro, ouvir músicas e ver filmes, a pessoa se comportasse de modo a emitir respostas emocionais associadas a prazer, satisfação, bem-estar, etc. Mas se esses comportamentos prazerosos não cessaram por meio de extinção operante ou de consequências punitivas, provavelmente cessaram por conta do princípio da habituação
Imagine que você nasceu em uma época antes da popularização da internet (ou pode de fato ter nascido, como no meu caso). Para conseguir uma música do seu artista favorito você não tinha Youtube, Spotify ou Deezer ou downloads ao seu dispor. Era preciso esperar a música tocar na rádio para gravá-la em uma fita, ou ainda juntar dinheiro para comprar o CD original (já que a pirataria não era tão recorrente) e ouvir a tão sonhada música. Resumindo: dava um trabalhão! Mas era justamente essa trabalheira toda pra conseguir uma simples música que gerava a sensação de conquista, de recompensa, de realização. Ouvir aquela música depois de toda essa luta parecia ainda mais prazeroso, pois o esforço feito para conseguí-la tinha sido imenso. Ouvir a canção era tão reforçador quanto estar no próprio show da banda querida ao vivo. É esse tipo de coisa que parece faltar ao eu-lírico da música. Vejamos o trecho: 



Vou procurar em todo canto até
Achar onde eu perdi
Minha vontade, o meu prazer de conseguir
E a paciência que eu preciso para curtir



Com a facilidade de conseguir um CD ou a discografia completa de um artista com um simples apertar de botão, tudo fica mais simples, menos trabalhoso, "melhor do que parece". Mas por que isso pode ficar tão sem graça? Justamente porque ficou mais simples e mais fácil. 
As sensações de prazer e alegria que sentimos estão relacionadas com a liberação de dopamina em nosso núcleo accumbens (estrutura cerebral com cerca de 1 cm de diâmetro). Essa liberação dopaminérgica é ainda mais efetiva quando obtemos sucesso por meio do esforço, do trabalho. Claro que quando alguma recompensa é obtida "na moleza" também teremos liberação de dopamina no cérebro e também nos sentiremos felizes. Porém, se isso acontecer de forma constante e contínua, a tendência é que o reforço perca sua magnitude e comece a ser não mais tão legal assim. É aí que entra a tal habituação
Sempre que surge um estímulo novo associado a certa recompensa a tendência é que nos comportemos de forma mais "efusiva", mais "intensa". Por outro lado, a apresentação desse estímulo de forma constante, repetida, pode causar a habituação a ele e não mobilizar o sujeito como antes. Ou seja: ao ouvir uma música pela primeira vez, o sujeito apresenta comportamentos emocionais mais intensos (prazer, sorrisos, lágrimas, bem-estar, euforia). Mas se for submetido a essa música a todo tempo o tempo todo, o sujeito pode "enjoar" dela. Isso piora ainda mais se o acesso a essa música tiver sido muito fácil, pois o custo de resposta baixo fará com que o sujeito discrimine o estímulo como pouco reforçador em menos tempo. Isso pode levar o ouvinte a procurar novas músicas para ter a mesma sensação de prazer que tinha no início e levá-lo a ficar "viciado em novidade", como diz a letra aqui analisada. Muda-se então de um estímulo para o outro, pois surge uma incapacidade de achar um mesmo estímulo reforçador por um período de tempo maior. O sujeito pode então pular de música em música, descobrindo cada vez mais coisas novas, mas continuar achando tudo sem graça. 
Com isso é preciso refletir sobre a importância das intermitências em nossa vida, de gerenciarmos as atividades prazerosas em nosso dia-a-dia, pois mesmo as coisas boas precisam ser administradas com sabedoria e com a consciência de que elas possuem o tempo certo para serem usufruídas. Ao usarmos os estímulos prazerosos com seus devidos intervalos e tendo os obtido por meio do esforço próprio, certamente os tornaremos mais reforçadores por mais tempo. E aí sim, tudo será melhor do que parece. 

Gostou do texto de hoje? Já passou por algo parecido? Já conhecia a banda O Terno? Tem outras músicas e bandas que deseja ver por aqui? Comenta, então! Sua opinião é como música para nossos ouvidos! Até porque...

Se é pop, a gente analisa!

Elton SDL


REFERÊNCIAS
MOREIRA, M. B. MEDEIROS, C. A. de. Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007.

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