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Entre morcegos e palhaços: como nascem heróis e vilões?


Obra: Batman - A Piada Mortal
Formato: Quadrinhos
Ano: 1988
Roteiro: Alan Moore
Arte: Brian Bolland
Editora: DC Comics



Não é preciso ser leitor de histórias em quadrinhos para conhecer Batman e Coringa, dois dos maiores personagens da editora DC Comics. Eles estão presentes para além do gibi: filmes, desenhos, camisetas, brinquedos e jogos, afirmando-se como dois dos maiores ícones da cultura pop. A popularidade dos arqui-inimigos foi ainda mais alavancada após sucessos de bilheteria como Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, cujo papel do Coringa, interpretado por Heath Ledger, figurou como um dos mais marcantes Palhaços do Crime já feitos no cinema. Nesse filme, por exemplo, é possível criar uma certa empatia pelo Coringa, apesar dele ser o vilão da história. Isso porque somos atraídos por seu controverso ponto de vista sobre a realidade e por sua fascinante e intrigante história, ainda que o vilão não deixe claro para o telespectador qual é sua origem, sempre contando uma versão diferente sobre ela.

Em 1988 surge nos quadrinhos a obra A Piada Mortal, escrita pelo britânico Alan Moore, com ilustrações de Brian Bolland. A Piada Mortal ficou famosa por, dentre outras coisas, contar uma das origens do Coringa mais aceitas no meio das HQ’s (Histórias em Quadrinhos), considerada muitas vezes como a origem oficial do personagem. A narrativa foi um marco no meio das HQ’s por trazer à tona uma série de reflexões, dentre elas: os vilões também têm uma história por trás de seus atos.

É bastante comum que os quadrinhos trabalhem com noções maniqueístas de bem x mal, herói x vilão, polarizando de forma absoluta ambos os lados. Isso vem mudando muito nas revistas desde pelo menos a década de 1970. Mas ainda paira no senso comum essa visão dualista que parece postular que os heróis nascem bons por excelência e que os vilões são maus por natureza. O que pensa a análise do comportamento sobre isso? Será que a bondade e a maldade já vêm de berço? 





Na perspectiva analítico-comportamental é preciso levar em conta três aspectos básicos que permeiam todos os comportamentos humanos, são eles: filogênese, ontogênese e sociogênese (cultura). A filogênese se refere a comportamentos herdados hereditariamente pela espécie, de ordem genética; a cultura interfere nos comportamentos modelados de acordo com a sociedade e os grupos nos quais o sujeito se insere e a ontogênese diz respeito a história pessoal de cada indivíduo, que é única e singular. Dentro de cada um desses três pilares, existe uma infinidade de variáveis acontecendo que dá origem às mais diversas contingências. Tomando por exemplo o aspecto ontogenético, vejamos como se dá a história do Coringa em comparação com a origem do Batman, usando como base A Piada Mortal.

Na obra de Alan Moore, vemos que antes de se tornar um criminoso insano, Coringa era um sujeito comum: casado, à procura de um emprego como comediante, lutando para sobreviver, pagar os boletos as contas e sustentar a esposa grávida e o filho vindouro. Ele vivia uma vida muito modesta, beirando a linha da pobreza. Noite após noite fracassava nos shows de comédia que fazia nos bares, sem arrancar nenhum riso da plateia e voltava para casa com os bolsos vazios.

Certo dia, o homem sem nome que se tornaria o Palhaço do Crime recebe uma proposta: auxiliar em um assalto e ganhar uma boa grana para quitar suas dívidas. Pensando na mulher, no futuro filho e em si mesmo, o homem aceita o convite. Mas na noite do assalto, sua esposa morre eletrocutada em um acidente doméstico. Coringa não tem mais motivos para continuar com o plano, mas mesmo assim seus comparsas insistem que o assalto siga conforme pensado. Coagido por seus “colegas”, ele segue para a fábrica que seria roubada. Para surpresa dos bandidos, Batman aparece no local, golpeia o homem que viria a ser o Coringa e este cai em um lago contaminado por produtos químicos. Seu cabelo fica esverdeado, sua pele totalmente branca. Com um sorriso permanente no rosto e um olhar maníaco de dar medo, finalmente ele se transforma no Coringa. 



A premissa de A Piada Mortal sustenta o argumento de que só é preciso um dia ruim na vida para que o mais sensato dos homens caia na completa loucura, mas não é bem assim. Ao contrário do que parece, Coringa não se tornou um vilão assassino da noite para o dia, como se loucura tivesse se instalado subitamente a partir de um fator isolado. Se analisarmos de forma rápida a história de vida dele, com base nos dados que a HQ fornece, vamos perceber que o personagem sofreu uma série de aversivos em contextos e situações diferentes: não tinha emprego, fracassava em suas tentativas como comediante, não tinha sustentação financeira, vivenciou a morte trágica da mulher e do filho. Agora imagine o que é tentar achar uma saída para seus problemas e falhar em todas as tentativas, de forma contínua e constante, sem intervalos e sem nenhum suporte. Não falo de um mero fracasso aqui ou outro acolá, mas sim de uma sucessão de grandes tragédias pessoais. Um sujeito sem um histórico de planejamento, resistência e enfrentamento para situações-problema provavelmente teria um direcionamento diferente de outro indivíduo cujo suporte fosse existente em sua vida. Por exemplo: Bruce Wayne, o Batman.

Como eu disse no início deste texto, não é preciso ser aficionado por quadrinhos para saber a clássica história de origem do Batman: garoto rico que testemunha o assassinato dos pais, herda a fortuna bilionária deles, é criado e orientado por seu mordomo Alfred e com o passar dos anos, e muito treino, torna-se um combatente do crime. Percebe a diferença? Tanto Batman quanto Coringa são personagens marcados pela tragédia e por perdas em suas vidas. Porém, apesar do enorme aversivo que é perder os pais ainda criança, Batman obteve suporte financeiro e orientação do fiel e paternal Alfred. Além disso, estudou nas melhores escolas, ingressou nos melhores empregos e teve maiores possibilidades de modificar sua história do que Coringa. Além disso, quando sofreu com a morte dos pais era ainda criança – esse fato, somado ao suporte e às oportunidades que teve, contribuiu no sentido de que uma criança possui maior plasticidade cerebral do que um adulto, e por isso mesmo aprende novos comportamentos com maior facilidade. 



Coringa poderia ter tido um rumo diferente, apesar de sua história sofrida e desastrosa. Mas, tal como o jovem Bruce Wayne, ele precisaria de contingências específicas que o auxiliassem em prol da mudança. Com isso não quero justificar as ações criminosas do vilão, mas compreender a ontogênese de cada sujeito nos auxilia a entender como ele veio a se tornar o que é, quais são as variáveis envolvidas nisso e como intervir de forma mais eficaz. Muitos outros fatores sobre a vida dos personagens poderiam ser analisados, com base em dados de outras e dessa obra aqui trabalhada. Mas por ora, A Piada Mortal nos serve como modelo para entender que heróis e vilões não nascem prontos, eles são construídos. E a linha que define um herói de um vilão pode ser mais frágil do que se imagina.

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Se é pop, a gente analisa!

Elton SDL


REFERÊNCIAS E SUGESTÃO DE LEITURA

SKINNER, B.F. Sobre o Behaviorismo. São Paulo, SP: Cultrix, 2006

MOORE, Alan; BOLLAND, Brian. Batman: A Piada Mortal [1988]. Barueri: Panini, 2011. 

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