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O que não lhe contaram sobre (500) dias com ela


Obra: 500 Dias com Ela
Formato: Filme
Ano: 2009
País de Origem: EUA
Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber
Direção: Marc Webb 
Produtora: Mark Waters


Olá! Tudo bem? Provavelmente você abriu esse artigo porque 500 Days of Summer deve  lhe ter feito embrulhar o estômago, lembrar de relações antigas ou atuais que não deram certo, não é? Ou, é só mais uma comédia romântica clichê. Se você me der apenas cinco minutos de seu tempo, irei lhe explicar porque muitos relacionamentos terminam como os de Summer e Tom, em 500 Days of Summer – e porque você aprende tanto com eles! Faremos um pequeno recorte das relações humanas simbolizado pela relação dos personagens. Vamos analisar?
Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) é um arquiteto e trabalha como escritor de cartões em Los Angeles. Conhece Summer Finn (Zooey Deschanel), assistente de seu chefe, por quem deposita um amor platônico. Programa de casal: filme, sexo, música e papo sobre a vida, o universo e tudo o mais apenas com a condição de serem indiferentes aos rótulos de uma relação – pelo menos é o que propôs Summer, a moça “realista” da estória. Sim, as aspas indicam uma certa ironia que contarei em breve. Aparentemente a relação desanda quando Tom apresenta sinais de irritação quando não a vê ou pensa na possibilidade de perdê-la, retratado nas crises quando um homem se aproxima de Summer. O filme sinaliza que, após assistir The Graduate (1967) - um longa que retrata o ideal romântico - Summer, irritada, relata não acreditar nesse amor puro e decide terminar. A reação do parceiro todos já sabem: bebida, isolamento e lamentação. Meses depois, Summer aparece noiva, confirmando a verdade do amor romântico e que o havia encontrado (em outra pessoa, obviamente). A conclusão desenhada pelos roteiristas é que não há alguém predestinado e que, no fim das contas, somos apenas fases uns dos outros. Bom, não nos conformaremos com as reflexões de frases prontas das quais já estamos acostumados, principalmente porque sei o poder da cultura impresso no cinema sobre nossas percepções. Ao contrário, vamos às provocações.
Summer é inteligente, carismática e envolvente. Seus pais se separaram e isso nos indica uma possível contingência/contexto que pode ter desfeito certas regras sobre relações bem sucedidas – tornando-a aparentemente avessa a qualquer tipo de rótulo que determinasse durabilidade de relação. Tom é um cara com poucos amigos, introspectivo e sonhador. Assistiu a filmes e ouviu músicas que retratavam justamente o mito do amor romântico (voilà, mais um indicativo de contingência formativa antes de sua relação com Summer).


Muitos aspectos afetivos, históricos e sociais que constituíram a formação do casal merecem ser retratados, mas um deles provavelmente muito chamou sua atenção e parece ter sido pouco explorado. Antes de trazê-lo, gostaríamos de facilitar sua compreensão   discutindo o conceito de livre-arbítrio.
Somos frutos da relação com nosso contexto formativo. Nossas ideias e valores somente são nossos na medida em que eles são ensinados e reconhecidos pelos grupos que convivemos ou por líderes que admiramos. Esse é um princípio de adaptação com alto valor de sobrevivência. A partir disso, já descartamos a noção de um livre-arbítrio associado à ideia de que a razão de nossas escolhas encontra-se numa entidade/vontade interior. Como havia dito, o próprio filme indica algumas contingências formativas dos personagens, mas será que apenas a separação dos pais e outros tipos de relação foram suficientes para que Summer rejeitasse um rótulo na relação com Tom? No primeiro momento até nos parece um motivo plausível, mas se assim o fosse, provavelmente não teria noivado meses depois com outra pessoa. E por que Tom havia acordado em manter uma relação sem rótulos no início, mas meses depois apresentou ciúmes exagerados e uma constante necessidade de oficializar? Não, não estou aqui para dizer mais do mesmo: “todos nós mudamos com o tempo, as vezes simplesmente não queremos uma relação e etc(uma busca rápida no Google resulta em uns 15 artigos com ‘6 coisas que aprendi...’). Essas afirmações são o que a maioria das pessoas dizem, mas é possível analisar cientificamente essa aparente contradição entre o que se diz e o que se faz? Claro que sim! Veremos como. Estamos falando de correspondência verbal.
A língua como nós conhecemos não é apenas um instrumento de expressão de ideias, mas um conjunto de comportamentos que operam sobre um ambiente social, sendo selecionados pelas consequências que produzem. Aliás, esse é só um tipo de comportamento que é o comportamento verbal. A maioria dos nossos comportamentos são selecionados pelas consequências que produzem, ou seja, só sentimos, pensamos e agimos dessa forma hoje porque assim nosso ambiente físico e social determinou. Não se assuste! Não estamos dizendo que somos sujeitos passivos ao ambiente: ao contrário, estamos modificando-o o tempo inteiro e sendo modificados por ele. É um processo dialógico. Vide você, leitor, que provavelmente terá suas percepções sobre o filme modificadas pela minha escrita – você interagiu com o ambiente (abriu a página e está lendo o artigo) e ele modificará suas impressões sobre o filme. Se você fizer um comentário, provavelmente me auxiliará na escrita e eu a modificarei, o que fará suas percepções sobre o artigo mudarem e assim vai, um constante processo de aprendizagem.
Voltemos ao comportamento verbal. Princípio básico: ele significa um tipo de comunicação em que o ouvinte disponibiliza algum elemento reforçador. Por exemplo: você está na balada, elogia a moça ou o cara e ela/ele sorri para você. O sorriso pode ter sido um elemento reforçador da sua iniciativa em conversar com ela e a probabilidade de uma boa conversa será maior à medida em que ela disponibilizar estímulos reforçadores ao seu comportamento. Basicamente, o que diferencia o comportamento verbal de outros comportamentos é que o estímulo reforçador depende de outra pessoa. Lembrando que estímulo reforçador é tudo aquilo que aumenta a probabilidade de emissão de um comportamento. Dizemos que estímulos aversivos aumentam a probabilidade de emissão de fugas e esquivas para que este seja eliminado. Estes são os procedimentos de aprendizagem da maioria dos nossos comportamentos. Entendê-los nos ajuda a compreender porque Summer e Tom parecem ser tão contraditórios e afirmar, com maior precisão, qual a verdade função por trás de suas palavras. Não iremos detalhar os tipos de comportamento verbal nem suas propriedades, o que é importante para você saber aqui é que nem sempre o que alguém diz corresponde com o que faz porque são comportamentos diferentes mantidos em função de reforçadores diferentes. Sabendo disso, avancemos na análise.
Costumamos atribuir motivos aos nossos comportamentos, sentimentos e ações, muitos deles ao observarmos nossa história; um exemplo disso é quando as pessoas dizem que Maria sofreu um trauma quando mais nova, desenvolveu um complexo e, mesmo 10 anos depois, esse acontecimento ainda mantém um certo tipo de isolamento social. Uma boa análise funcional do relato de Summer sobre seu desprendimento a rótulos não pode se basear apenas num acontecimento há mais 5 anos porque desde esse momento a interação e a aprendizagem com seu ambiente foi constante. Eu diria que esse relato estava sendo mantido mais em função de contingências recentes ou atuais do que de um passado muito distante. Talvez até a perda de outros reforçadores de maior magnitude disponibilizados por outro parceiro, que não é citado na estória, pode ter contribuído para que esse relato aparecesse – como uma esquiva. Essa hipótese ganha força na medida em que a própria personagem relata, ao final do filme, ter encontrado alguém o suficientemente reforçador a ponto de aceitar o rótulo de noiva. Em outras palavras, talvez Tom não fosse tão interessante para ela assim – ainda que, do ponto de vista do roteirista e do público, ele fosse o cara mais gente boa, honesto e perfeito para uma relação (C’est La Vie!)  Eu poderia explorar alguns aspectos do comportamento de Tom que podem tê-lo tornado menos interessante, mas isso fica para outro momento.


Se você se identifica com Summer, provavelmente deve ter pensando: Ah, mas ela sempre deixou claro que não era o que queria e ele mesmo azedou a relação, cheio de inseguranças, ciúme, insistência e bla bla bla...
De certo modo, foi isso que aconteceu. Tom não foi coerente com o que disse, acordou no primeiro momento mas depois não sustentou. Medo de perdê-la? Dissemos anteriormente que nossos relatos são mantidos se eles nos proporcionam algum tipo de reforçador natural ou social ou eliminam a qualquer estímulo aversivo. Perder os reforçadores recém adquiridos seria devastador para Tom e o que ele pudesse dizer para evitar seria ainda melhor. Se passamos por um histórico de privação e, de repente, acessamos uma fonte de descarga de dopamina e serotonina presentes no início de qualquer paixão, quem gostará de perdê-la? Se a condição foi colocada, facilmente aceitaremos. Foi o que aconteceu com Tom. Sem pensar duas vezes, embarcou na relação e o acesso aos reforçadores de forma intermitente tornaram seu discurso ainda mais insustentável. Parece que o rótulo poderia garantir que a relação continuasse e seu comportamento verbal passou a ficar sob controle da possibilidade de perder os reforçadores diante de constantes ameaças presentes no ambiente.
Summer termina a relação numa postura de firmeza, pois, ao seu ver, mesmo sempre deixando claro que não se prendia a rótulos para se relacionar, Tom passou a insistir nisso e tornou a relação insustentável. Summer não sabia, porém, que ela mantinha alguns comportamentos de Tom de forma intermitente (quando desaparece e depois de um tempo volta e pede desculpas), e mal sabia ele que provavelmente algum outro potencial parceiro ainda mais reforçador estava às vistas – ainda que nem ela mesmo percebesse. Depois de um longo tempo de separação, o relato que Summer apresentou sobre ter encontrado o amor em outro rapaz e que Tom estava certo deixou claro que provavelmente não se percebia – ou sabia e muito o que mantinha os comportamentos de Tom, mas isso é outra estória.
Compreender que cada palavra dita tem a função de produzir "ganhos" ou eliminar alguma situação "desconfortável" nos ajuda a repensar os personagens sem a clássica dicotomia mocinho(a) x vilão e concluir que dada a mesma história e situação Tom, Summer ou você agiriam exatamente igual. Quando percebemos que Summer e Tom mudaram de postura com o tempo, mas identificamos padrões de comportamento semelhante, percebemos que "bom" ou "mal" são termos muito superficiais e que não cabem na análise do comportamento humano. Muitas outras situações merecem ser exploradas, entre elas a relevância dos amigos nas resoluções dos problemas do casal e até mesmo do papel do Cinema na formação do protagonista. Essa não é a primeira análise comportamental das relações afetivas retratadas no filme 500 Days of Summer. Se você ficou interessado, leia nossas referências e encontre um ótimo material para se debruçar. Nossa contribuição deu-se na medida em que toda produção cinematográfica modela de alguma forma nossa percepção sobre os fenômenos em nossa volta e por ser relevante tratar de um aspecto fundamental e intrigante das relações afetivas: a correspondência verbal. Além disso, a análise contribui para uma visão alternativa àquela de que mudamos frequentemente de opinião ou de crenças como se este fosse um processo aleatório, ou mesmo amplia a perspectiva geral de que Summer ou Tom foram simplesmente bem ou mal intencionados na estória ou que isso só dependia deles.
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Anne Maia



REFERÊNCIAS E SUGESTÃO DE LEITURA

BARROS, Romariz da Silva. Uma introdução ao comportamento verbal. Rev. bras. ter. comport. Cogn., São Paulo, v. 5.n.1, p. 73-82, jun. 2003. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S151755452003000100008&lng=pt&nrm=iso>.

Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007.

Pereira, H. C. F. & M. C. A. (2014). “500 dias com ela”: Análise comportamental de relações afetivas. In: Skinner vai ao cinema 2. Org. Ribeiro, M. R.; De-Farias, A. K. C. R. V.2. Brasília: Instituto Walden4.

Skinner, B. F. (1978). O comportamento verbal. (M. P. Villalobos, Trad.). São Paulo: Cultrix. (Obra originalmente publicada em 1957);

Skinner, B. F. (1993) Ciência e comportamento humano. (J. C. Todorov & R. Azzy, Trads.). São Paulo: Martins Fontes. (Obra originalmente publicada em 1953);

Skinner, B. F. (2002). Questões recentes na análise comportamental. (A. L. Neri, Trad.). São Paulo: Papirus. (Obra originalmente publicada em 1989).

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