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Como se tornar um Viking (Ou Um Guia para ser um guerreiro nórdico)



Obra: Vikings
Formato: Série de TV
Ano: 2013-atualmente
País de Origem: Canadá/Irlanda
Produtora: History Channel


Obs.: Este artigo pode conter alguns spoilers sobre a primeira temporada da série Vikings.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra (Mateus 5.5).
Nós lutamos. É assim que vencemos. E é assim que morremos (Ragnar Lothbrok).

Saudação, caro(a) leitor(a)! Se você veio até aqui é porque acredito que deseje se tornar um guerreiro viking, estou certo? Pois muito bem, AC Pop ajudará você nessa venturosa jornada! Mas não pense que para ser um viking basta deixar a barba crescer, beber hidromel até cair, comprar um barco e sair velejando por aí e ir ao cinema ver os filmes do Thor, não senhor! Ou você moça, que logo de cara pensa em ser uma destemida guerreira valquíria, vamos com calma que Midgard não foi feita em um dia. Ser um guerreiro nórdico requer muito mais que apenas maratonar todos os episódios da série Vikings, produzida pelo canal History Channel que narra a saga de Ragnar Lothbrok e as aventuras de seu povo rumo ao oeste e à descoberta de novas terras, ouro e glória. Para se transformar em um verdadeiro viking você precisa primeiro se adequar à cultura viking. Mas, em nome do martelo de Thor! O que afinal é cultura?
Cultura é um termo complexo, com diferentes concepções e definições – algumas que se assimilam e outras que se distanciam. De acordo com o dicionário Aurélio (edição de 1986), cultura é “o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade ou civilização (a cultura ocidental, a cultura dos esquimós)”; “o desenvolvimento de um grupo social, uma nação, etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores (civilização, progresso: A Grécia do sec. V a.C. atingiu o mais alto grau de cultura da sua época)”. Isso só para citar alguns exemplos, pois de forma geral não há um consenso sobre o significado de cultura. A antropologia, a sociologia e a psicologia, por exemplo, dão sentidos diferentes ao conceito. Mas vejamos o que seria cultura para nossa querida Análise do Comportamento.
Para Skinner, o Odin da Análise do Comportamento, cultura e ambiente social são sinônimos. Assim que alguém nasce, desde criança, começa a interagir com as contingências do seu ambiente: as músicas que aprende com os pais, as histórias que ouve dos avós, as brincadeiras que aprende com os irmãos mais velhos, as comidas que experimenta, as roupas que veste, e tudo mais que se possa imaginar. Esses elementos são passados de geração em geração, reforçados pela comunidade verbal (pessoas que formam o grupo cultural) e perduram através dos tempos.
Em resumo: para Skinner, Pai de Todos do Behaviorismo Radical, pensar em cultura significa pensar em práticas que são reforçadas pelo grupo e que garantem a sobrevivência, ao mesmo tempo, do próprio indivíduo e da própria cultura onde o sujeito nasceu. Essas práticas geralmente são estabelecidas por regras, leis, costumes, tradições e aspectos religiosos. Voltando à série Vikings, basta pensarmos em dois personagens de culturas distintas: Ragnar Lothbrok, que nasceu na cultura nórdica do povo viking e o monge Athelstan, que nasceu nas terras britânicas, dentro da cultura do cristianismo. Cada um desses personagens foi exposto desde a sua infância a contingências diferentes. Ragnar provavelmente cresceu do mesmo modo que seu filho Bjorn, aprendendo sobre a existência de diversos deuses do panteão nórdico, sobre as tradições cerimoniais; aprendeu que para aquela terra específica existia um modo específico de plantar e de caçar; aprendeu desde cedo a importância de ser um guerreiro forte e destemido, por isso treinava técnicas de combate com seu pai.
Aliás, para os vikings, ser bravo, forte e guerreiro, era uma qualidade reforçada não apenas pelos membros da cultura, mas pelos próprios deuses – Odin, Thor, Heimdall, Tyr, todos são deuses associados à guerra. Aquele que guerreava com bravura e destemor, não temendo a morte em campo de batalha, ao falecer iria diretamente para Valhalla, o grande salão de Asgard, onde se teria a honra de morar ao lado das grandes divindades. Mas calma lá! Não vá pensando que é só entrar feito uma barata tonta no meio de uma batalha e morrer de qualquer jeito sem saber nem dar um peteleco na orelha do inimigo que você vai ser carregado nos braços das lindas valquírias para as salas de Valhalla e passar a eternidade bebendo e comendo com Odin. Para ter essa honra um viking de verdade deveria morrer igualmente com honra, ou seja: lutando pra valer! Não quer perder a vida na guerra, tá com medinho? Tá bem então, você pode levar uma existência pacata e morrer de velhice, mas saiba que não vai ter nada de Valhalla pra você. Quem morre de causas naturais, doença, velhice ou acidente vai pra outro lugar: Hel – que é quase isso que você tá pensando mesmo, um reino subterrâneo, vulgo: sete palmos debaixo da terra.


Por outro lado, o monge Athelstan cresceu crendo em um deus único, cujo filho pregava não a guerra, mas a paz, a bondade, a mansidão e o “dar a outra face” quando alguém batesse. Para Athelstan não importava ser um guerreiro, ele não precisava saber lutar. Assim, a cultura cristã do monastério modelou comportamentos muito específicos no monge: a oração, o estudo, o serviço. Não por menos, quando os vikings invadem a região da Nortúmbria, dilaceram o monastério inteiro, sobrevivendo apenas Athelstan por motivos de: interesses de Ragnar. Como explicar essas diferenças culturais numa perspectiva comportamental? Por que para uma cultura certos elementos são mais reforçados que outros? Para entender isso vamos pedir a ajuda dos universitários... digo, do antropólogo Marvin Harris.
No livro “Vacas, Porcos, Guerras e Bruxas: Os Enigmas da Cultura”, o antropólogo defensor do materialismo cultural fala sobre o costume dos indianos de não comer carne de vaca e de venerarem o animal como se fosse um deus. Embora o viés religioso seja o mais recorrente para explicar tal fato, Marvin Harris vai mais além. A origem “sagrada” do culto e do respeito às vacas teria explicações de base material ligadas à sobrevivência do povo da Índia.
Em um país superpopuloso como é a Índia (com cerca de 1,3 bilhões de pessoa) a produção de alimentos se faz mais que necessária. Alimentar todo mundo não é tarefa fácil e pressupõe imenso gasto de energia para os trabalhos agrícolas. Nesse sentido, os bovinos são de grande utilidade para arar a terra, produzir leite e benefícios secundários como: o esterco, que é utilizado como combustível ao invés do carvão (praticamente inacessível ao camponês pobre e que implicaria no desmatamento total das reservas naturais indianas) e transporte de cargas, pessoas e bens. Estes são apenas alguns exemplos dos muitos que atestam a utilidade prática da vaca para a cultura indiana. Por isso se sustenta e se reforça através de um forte viés religioso que o abate e consumo da carne bovina é proibido – ora, há muito mais ganhos quando se mantém uma vaca viva do que se ela fosse morta e tivesse sua carne consumida. A carne cozida ou assada duraria por alguns dias, enquanto que uma vaca viva ajudaria a produzir alimentos e subprodutos como o esterco por muito mais tempo. Então é como se existisse uma lei federal que proibisse terminantemente o abate bovino, mas essa “lei” vem disfarçada de valores culturais.
Fica evidente que a cultura cria valores, crenças e costumes que são essenciais para a manutenção da sobrevivência diária do seu povo, não apenas por folclore, religiosidade, entretenimento e lazer. “Tá bom, mas não estamos falando dos indianos e sim dos vikings! O que isso tem a ver?”, você deve indagar. E você está completamente coberto de razão. Por isso, voltemos às gélidas terras do extremo norte europeu (brrrrr!).
Vamos relembrar dois dos principais personagens da série Vikings: Ragnar, o viking e Athelstan, o monge cristão. Athelstan nasceu em terras inglesas, em um local geograficamente extenso, com terras cultiváveis e um sistema monárquico que tinha um bom acúmulo de riquezas. Por isso, Athelstan não precisava se preocupar em demasia com o que comer. Bastava que ele rezasse, a comida estava sempre na mesa.


Ragnar nasceu em uma região bem mais hostil. Os países nórdicos nunca foram grandes em extensão; o clima rigorosamente frio e o tipo de terra tornavam a agricultura e a pecuária tarefas penosas. Recursos naturais como o ouro e o metal de qualidade, por exemplo, também não eram fáceis de achar. Cercados por vastos oceanos de todos os lados, para sobreviver os vikings precisavam lutar, lutar muito, navegar, achar outras terras e povos, pilhar e matar esses povos, saquear suas riquezas, lutar mais um pouco e remar mais um bocado de volta para as suas terras. E eles conseguiriam realizar tudo isso se ficassem trancados em suas casas ou se tivessem piedade de seus inimigos ou ainda se tivessem medo de morrer durante suas aventuras? A resposta obviamente é “não”. Assim, construiu-se um sistema cultural cujos deuses eram guerreiros que valorizavam até mesmo a morte em batalha. Apenas acreditando que a morte era mais gloriosa que a própria vida, um viking poderia arriscar sua pele em confrontos pela busca de recursos que garantissem a sobrevivência dos seus. E a própria comunidade viking reforçava esse aspecto de luta e destemor entre seus membros. Quem lutava ou até mesmo morria em batalha, era celebrado como um herói.



Ao invés de enaltecer os resignados, destacava-se a força. No lugar de pregar a bondade e o amor ao inimigo, reforçava-se o combate a ele. E pra quê ter um mandamento como “não roubarás” quando se está desesperado atrás de ouro, terras e comida? As tradições vikings eram muito diferentes das tradições cristãs e isso – que também é cultura – modelava diretamente o comportamento do grupo nórdico. Tal comportamento era reforçado e mantido por meio da cultura, que via nele um valor de sobrevivência imenso, não apenas para um indivíduo, mas para todos que comungavam dos mesmos ideais culturais.
Athelstan pensava e agia diferente no início da série. Mas a partir do episódio em que foi “sequestrado” pelos vikings e passou a viver com eles, pouco a pouco foi assimilando o modo de viver do povo pagão. Aprendeu sobre seus deuses, seus sacrifícios, rituais e festas; deixou o cabelo e a barba crescerem e aprendeu até mesmo a lutar, tornando-se um exímio guerreiro. Em pouco tempo estava transformado em um viking, comungando de seus valores e até mesmo lutando ao lado deles contra os ingleses.



Athelstan pode não ter discriminado inicialmente porque se comportou dessa maneira, mas certamente ele viu que era necessário se adequar ao novo modelo cultural se quisesse continuar vivendo. Para sobreviver em meio àquele povo, naquele lugar, não poderia mais ser um monge resignado, mas sim um guerreiro forte e destemido – pois a cultura viking seleciona os comportamentos ligados à bravura e ao combate. Ah, e ter uma barba exuberante também é importante, por isso a do monge cresceu (esses vikings, sempre vaidosos).
Em outro ponto da série, Athelstan se revela portador de um repertório comportamental imenso. Para Skinner, repertório comportamental diz respeito ao que um sujeito é capaz de fazer de acordo com a situação específica na qual se encontra. Ou seja: quando Athelstan precisa se comportar como um viking em meio aos barbudos, uma vez que estão instalados nele os comportamentos estabelecidos pelo sistema cultural viking, ele age como tal. Quando o monge se encontra em um ambiente diferente, no caso, em seu monastério na Inglaterra, ele comporta-se dentro daquilo que ele aprendeu enquanto monge. Tanto é que, em dado momento, após já ter se transformado em um viking, Athelstan volta para seu lugar de origem e percebe que para sobreviver lá precisa se transformar novamente em um monge, pois as normas culturais cristãs o veem como apóstata diante do que ele aprendeu com os povos do norte. Para se livrar desse aversivo altamente incômodo que poderia custar sua própria vida, ele não hesita em abraçar de novo o cristianismo.
Em suma: o sujeito com um amplo repertório comportamental modelado por culturas diferentes é capaz de aprender a se comportar de acordo com cada uma delas mediante a necessidade. Isso nos ajuda a entender, por exemplo, porque na chamada era da globalização, com os meios de comunicação fazendo esse grande intercâmbio cultural entre povos, não é mais necessário entrar em contato direto com os nativos de dada cultura para que se assimile seus elementos. Por meio das músicas, da TV, do cinema e das séries online, podemos aprender a nos comportar como os norte-americanos, os espanhóis ou... como os guerreiros nórdicos! Mas se for pra se transformar em um deles, ouça o que eu digo: prefira aprender com a série Vikings do que com os filmes do Thor da Marvel!
AcPop: Se é pop, a gente analisa!
Elton SDL





REFERÊNCIAS E SUGESTÃO DE LEITURA
HARRIS, Marvin. Vacas, porcos, guerras e bruxas: os enigmas da cultura. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
MOREIRA, M. B. (Org.) (2013). Comportamento e Práticas Culturais. Brasília: Instituto Walden4.
SEGANFREDO,Carmen; FRANCHINI, A. S. As Melhores Histórias da Mitologia Nórdica. S.I.: Artes e Ofícios, 2004.
ZORTEA, T. C. Notas sobre repertório comportamental. Oxford, 2013. Disponível em: <http://comportamentoesociedade.com>;. Acesso em: 21 Nov 2017.

Um comentário:

  1. Um modo cativante e cômico de falar sobre modelagem e modelação cultural. Excelente Varão!

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