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Coringa: vítima, culpado ou algo entre os dois? Um olhar analítico-comportamental sobre o filme.




Obra: Coringa
Ano: 2019
Produtora: Warner
Roteiro e Direção: Todd Phillips

AVISO: Este texto contém spoilers sobre o filme.

O filme Coringa (2019), dirigido por Todd Phillips e estrelado magistralmente por Joaquin Phoenix, já é um clássico para mim. Ele certamente sobreviverá ao tempo sem perder o frescor e a relevância e, a julgar pelo modo como caminha a humanidade, os debates por ele trazidos serão sempre atuais.
Como amante da sétima arte, foi extremamente gratificante sair da sala de cinema com a sensação de ter visto um filme tecnicamente bem produzido. E como psicólogo, fiquei igualmente encantado com a capacidade do roteiro de produzir uma história coerente sobre como uma pessoa pode se tornar um louco, um homicida, um vilão ou um... palhaço. Já falei aqui no blog sobre o Coringa, neste artigo, utilizando a HQ A Piada Mortal como pano de fundo. Aliás, é possível notar no filme várias influências e referências da obra de Alan Moore e Brian Bolland. Uma das premissas de A Piada Mortal é a de que só é preciso um dia ruim para que um homem considerado “normal” se transforme em um homem “louco”. Isso pode ir ao encontro de uma crença muito recorrente no senso comum, qual seja: a de que algumas pessoas “surtam do nada” e “do dia para a noite” se transformam em assassinos ou lunáticos. Pensar os processos psicológicos dessa forma é algo equivocado, se partirmos de uma perspectiva analítico-comportamental da psicologia. Coringa não se torna o palhaço criminoso e psicologicamente instável de uma hora para a outra, a própria história escrita por Alan Moore na HQ mostra que houve todo um processo sendo construído ao longo do tempo na vida do personagem. A HQ, no entanto, faz isso de uma forma resumida, em comparação com o longa. E é nesse ponto que reside um dos trunfos do filme Coringa: ele aprofunda e detalha os elementos que transformaram Arthur Fleck no icônico vilão e arqui-inimigo do Batman.


Coringa é uma obra que realiza um excelente estudo de personagem e isso fica nítido através da direção intimista de Todd Phillips: os closes no rosto de Joaquin Phoenix e as locações fechadas, onde se passa a maior parte do filme, evidenciam o mergulho na história particular de Arthur Fleck. Não obstante isso, há também um equilíbrio entre esse “intimismo” e as outras variáveis no entorno do protagonista que influenciam diretamente em sua macabra “transformação”. Falo aqui das variáveis ligadas aos aspectos biológicos, ontogenéticos (história de vida) e sociais/culturais – o tripé básico que fundamenta uma análise comportamental behaviorista radical. Foi a relação entre esses três fatores que o filme explorou de forma certeira e equilibrada na composição do personagem. Não há no roteiro uma responsabilização totalmente social pela “loucura” do Coringa, como se a transformação do protagonista fosse culpa somente da sociedade caótica, fria e injusta. Também não existe uma ideia de “loucura inata” ou atribuída apenas a disfunções biológicas. É a interação entre esses elementos que modelam os comportamentos do personagem.
Em poucos minutos de filme é mostrado que Arthur Fleck tem uma disfunção neurológica que causa risadas incontroláveis não compatíveis com seu estado emocional, fazendo com que ele ria em momentos de tristeza, desespero ou dor. Além disso, é dito que o protagonista já foi internado em um asilo. Vemos também que Arthur Fleck tem alucinações recorrentes, uma das características dos transtornos psicóticos, tais como a esquizofrenia. Em suma: há uma predisposição biológica, um distúrbio a nível neurológico que evidencia a possibilidade de um transtorno maior no personagem. Ainda assim, ele buscava se inserir na sociedade e levar sua vida por meio do trabalho. Sonhava em ser comediante, em ter uma relação amorosa – sonhava em ter o que costumamos nomear culturalmente de uma vida “normal”.
Apesar dos “problemas mentais”, que prefiro chamar de comportamentos mal adaptados, Arthur Fleck exercia uma rotina que o auxiliava a manter sua sanidade. Ele tinha o dever de cuidar da sua mãe, trabalhava como palhaço em uma agência, frequentava uma espécie de terapia ou aconselhamento psicológico fornecido pelo governo. Essas variáveis, por mais precárias que pudessem ser, ainda assim pareciam exercer uma função de sustentáculo da saúde mental de Arthur, sem falar do grande sonho de se tornar um comediante de sucesso. Sem sonhos e objetivos diários que constituam rotinas saudáveis em nossa vida, corremos um grande risco de nos tornarmos seres deprimidos, ansiosos, doentes física e mentalmente.
Na condição de Arthur, que já sofria um processo de adoecimento, tais elementos eram muito importantes, como se fossem as últimas barreiras que o protegiam do adoecimento total. Mesmo um emprego mal remunerado é melhor que nenhum emprego quando sua cidade está passando por uma crise, mergulhada em lixo, violência, corrupção e caos. Mesmo o fardo de cuidar diariamente da mãe idosa é uma dádiva quando não se tem uma relação social saudável, quando o isolamento é crescente e todos ao seu redor te agridem e te discriminam – nessa situação, ter alguém de quem cuidar é ter um objetivo, uma razão para lutar, suportar as dores e viver; é ter alguém para conversar, abraçar e ser abraçado. Mas o que aconteceria se tudo isso fosse tirado de Arthur?
Pouco a pouco os pontos de apoio que compõem o escudo contra a insanidade do protagonista vão caindo por terra. Ele é demitido do emprego e descobre que seus colegas de trabalho arquitetaram sua demissão. Ele descobre também que sua bondosa mãe não era quem ele pensava ser – e o filme não deixa totalmente claro se a mãe de Arthur era de fato uma mulher com comportamentos mal adaptados que o maltratava, ou se tudo foi parte de um plano arquitetado por Thomas Wayne para encobrir um possível adultério e um filho bastardo. Na terapia subsidiada pelo Estado as coisas também não iam bem: a terapeuta anunciou que não poderia mais acompanha-lo, devido a cortes no orçamento. Com a mãe assassinada, sem trabalho, sem quem o escutasse e sem amor – sua idealizada vizinha não passara de alucinações – o que resta? O sonho. Arthur Fleck ainda sonhava em ser comediante.
As piadas de Arthur não eram as melhores do mundo, verdade seja dita. Mas, o que ele poderia ter se tornado se tivesse obtido os direcionamentos certos? O que ele poderia ter sido se tivesse, digamos, entrado em um grupo de teatro, feito um curso de artes cênicas ou algo assim? Talvez ele tivesse se tornado um bom comediante se alguém o tivesse ensinado e encorajado. Mas não foi isso o que aconteceu. Arthur teve suas piadas e apresentações de stand up gravadas e ridicularizadas em rede nacional por um programa de auditório.
Rejeitado pela sociedade ao tentar interagir com ela, agredido física e verbalmente nas ruas e nos metrôs, sem vínculos verdadeiros e com seu maior sonho transformado em piada pela mídia na qual almejava trabalhar: tudo ao redor de Arthur Fleck era aversivo; sua vida tinha mais aversivos do que reforçadores. Aliás, mesmo após tudo isso, Arthur se voltou para o único reforçador disponível, o único que sobrara, o único real e acessível naquele momento. Algo que, na verdade, constituía-se uma armadilha de reforçamento.
Arthur não conseguia valorização por ser um palhaço comediante, mas conseguiu atenção e admiração por ser um palhaço assassino. Após matar um grupo de empresários ricos, no início do filme, o protagonista ganha um status de "herói das massas". A mídia ridiculariza o homem que tentou fazer humor, mas enaltece o homem vestido de palhaço homicida, estampando como manchete principal nos jornais a notícia das mortes feitas pelo "palhaço justiceiro". A sociedade espanca e afasta o homem que tenta fazer um contato honesto, apesar de excêntrico, mas valoriza o homem que atirou em outros homens no metrô. Eis o perigo, eis o erro. Arthur não recebe atenção e valorização por seus comportamentos funcionais, mas recebe atenção (em larga escala, uma atenção social muito grande) por seus comportamentos mal adaptados. E é bem sabido que os organismos, desde os mais simples como uma ameba aos mais complexos como os seres humanos, vão se direcionar para o lado onde há mais recompensas e irão se afastar do lado onde há mais punição ou que simplesmente não apresenta ganhos.
Assim sendo, Arthur se torna aquilo que as contingências produziram e que, naquele momento, ele não soube e não pôde rearranjar. Arthur se transforma no Coringa.


Ao contrário do que muitos disseram, o filme não enaltece a figura criminosa do Coringa, não legitima ou justifica a violência por ele praticada. Também não o elege como herói ou um coitadinho vítima da sociedade, mas mostra o potencial perigo que espreita nossas complexas estruturas culturais que excluem o outro ao invés de ajuda-lo. Mostra que, muitas das vezes, essa ajuda inexiste ou quando existe é insuficiente e falha. Coringa se torna um palhaço, a figura-símbolo que carrega em si o contraste da comédia e da tragédia ao mesmo tempo; o palhaço das tradições circenses e teatrais que, ao mesmo tempo em que é ridicularizado, é o único que pode, por conta de seu papel e posição, dizer a verdade, quase de forma onisciente, sobre tudo e sobre todos, doa a quem doer. E dói ver que Coringa escancara em seu sorriso nossa hipocrisia cristã ocidental, que prega paz, amor, compreensão e acolhimento às diferenças, mas que na prática exclui as diferenças.
Talvez Coringa fosse outra coisa, ele tinha o potencial para ser bom. Basta lembrarmos das cenas onde ele tentava se aproximar das crianças para fazê-las rir, mas era recriminado pelos pais, ou da cena em que Coringa poupa a vida do anão por ele ter sido a única pessoa verdadeiramente bondosa com Arthur. O que fazemos a nível micro e macro, o que escolhemos valorizar e o que escolhemos desprezar, como o fazemos e com quem o fazemos pode ajudar a produzir heróis ou vilões, inclusive em nós mesmos - e esta é uma responsabilidade imensa.

Elton SDL

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