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Soluções mágicas não ensinam a reinventar a vida




Obra: De Repente 30
Formato: Filme
Ano: 2004
Direção: Gary Winick

Se você tivesse a chance de refazer qualquer coisa, o que seria?

[Tempo de Leitura: 5 minutos]

Quando somos crianças, tudo parece mais intenso e mais difícil de lidar. Nos envolvemos em situações que parecem ser as piores e mais difíceis que já puderam ser vivenciadas por alguém (não experimente quebrar a xícara da louça preciosíssima da sua avó!). Gosto quando alguns comediantes nos lembram os desafios e anseios de ser criança, brincar e ter que atender os pedidos das nossas mães. 


Quem nunca elaborou uma estratégia colossal para evitar a bronca por ter preferido brincar em vez de fazer a tarefa de casa? É mais fácil sorrir dessas situações quando somos adultos e olhamos para trás com a sensação de que “Ufa, passei por isso, mas tô aqui! Que coisa tão simples…”. Aos 7 anos, passei por uma dessas angústias tão grandes que merece ser contada aqui.


Era o ano de 2000 e o filme “O Homem Bicentenário” chegava aos cinemas brasileiros consagrando a carreira de Robin Williams. Angelina Jolie ganhava um Oscar e o "Auto da Compadecida" estreava nas telas dos cinemas. Grandes acontecimentos na Arte, Política, Economia… grandes promessas para o novo século. As pessoas ao redor do mundo tinham tantas expectativas para esse novo milênio que alguns até acreditavam no Apocalipse prometido. Era o Réveillon de 2000. Enquanto uns comemoravam esperançosos por um novo mundo, meu maior desejo era ter uns 25 anos. 


Alguns minutos após a virada do século, na euforia e enquanto todos estavam comemorando, lembro-me que deixei cair uma taça caríssima e de muito valor para a minha avó – se você já quebrou algo importante de sua avó ou da sua mãe, sabe do que eu estou falando. Eu corri, fui até o quintal e olhei para uma igreja iluminada a muitos metros de distância. A única coisa que eu pensava era:
"Tempo, passe logo. Como eu não queria passar por isso!"


Eu bem que queria estar na pele de Jenna (Jennifer Garner, De repente 30) mas meu desejo não foi atendido. O tempo passou e não foi num passe de mágicas. Aos 7 anos, uma simples taça quebrada me fez ter a sensação de que tinha feito algo muito, muito errado e eu não tinha saída. Após 18 anos só consigo rir da situação e pensar: “Ah, mal sabia eu que o tempo iria passar, quisesse eu ou não”. Sabe o que é interessante? É que, talvez, se eu tiver a graça de completar meus 50 ou 60 anos, olhe para as minhas dificuldades atuais e pense: "Para que tanto? Eu deveria ter isso… ou aquilo…", o tempo passa e vamos amadurecendo. Mas isso é só no discurso e no filme: não é o tempo que passa, é o que fazemos com o tempo que passa que determinará o modo como lidamos com as situações difíceis da vida.






Cada momento, uma angústia. Cada pessoa, uma história. Que bom que posso rir do acontecido! Minha única saída naquele dia foi esperar o tempo passar e retornar para o local onde todos estavam na esperança que haviam esquecido daquela taça. E foi assim que aconteceu. Hoje penso como foi importante ter vivenciado a experiência do desconforto para, assim, achar a saída (que, as vezes, é esperar um tempo, respirar e agir novamente).


Ao longo do nosso desenvolvimento passamos por situações difíceis que exigem de nós um pouco de persistência para encontrar rotas de fuga. Acontece que nem sempre temos um ambiente que nos encoraja a enfrentar! E o que podemos fazer com isso? Nós, analistas do comportamento, dizemos que é preciso modificar as contingências: agir sobre o mundo para que as consequências retroajam sobre nós. As soluções mágicas como depender de um horóscopo ou esperar que o tempo passe rapidamente são mais sedutoras, mas não nos dão o sabor que é reinventar a própria vida, tornar-se dono de si mesmo, empoderar-se. 


Algumas pessoas nesse exato momento podem estar como eu, aos 7 anos, olhando para uma taça que se quebrou e pensando: “E agora? Eu só queria que o tempo passasse!”. Não cabe a mim dizer que o motivo é legítimo, é necessário ou não, cabe a mim mostrar uma saída. Sei também que nem sempre mostrar a saída vai garantir que alguém a visualize!


Por exemplo, alguns experimentos com animais indicaram que a variabilidade comportamental (diversas estratégias diferentes para lidar com alguma situação) pode ser adquirida diante de uma situação aversiva. O interessante é que "as saídas" só aparecem, no entanto, na medida em o sujeito se comporta de modo diferente. Assim também é conosco: se não agirmos de modo diferente para mudar aquilo que nos incomoda, as saídas não aparecerão. Não como um passe de mágica, não como em um filme.


Jenna facilmente livrou-se de uma situação aversiva que era sentir-se impopular e pouco atraente em comparação com as meninas de sua idade. No filme, vai dos 13 aos 30 anos num passe de mágica (literalmente!) - sua idade tão sonhada, a idade da mulher bem sucedida havia finalmente chegado. Esqueceu-se, do processo e essa foi sua maior angústia. E, mesmo assim, tentou novamente. 


A vida também é um processo e, felizmente ou não, as situações difíceis não passam num passe de mágica: é preciso sair da prisão interna, encorajar-se e buscar alternativas. Você escolherá a ilusão ou o enfrentamento? 

Um fracasso nem sempre é um erro, pode ser simplesmente a melhor coisa que alguém pode fazer diante de certas circunstâncias. O verdadeiro erro é parar de tentar.

B. F. Skinner


Anne Maia
Se é pop, a gente analisa!

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Se você está passando por alguma situação que parece não ter saída, ela de fato não vai aparecer a menos que você continue tentando. Faça algo diferente: pegue seu telefone, em qualquer hora e ligue para o Centro de Valorização da Vida – número 188. Alguém estará disposto a trocar um diálogo contigo. Uma outra possibilidade é o acompanhamento psicológico! Cuide-se: essa é a melhor estratégia.





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