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Você não é tão livre quanto pensa.


Obra: Watchmen
Formato: Quadrinhos
Ano: 1986-1987
Roteiro: Alan Moore
Arte: Dave Gibbons
Editora: DC Comics


"O homem está condenado a ser livre[...]". (Jean-Paul Sartre)

"Todos nós somos [marionetes], Laurie. Eu apenas sou uma marionete que vê as cordas". (Dr. Manhattan, em Watchmen



Quando pensamos nas coisas que fazemos, nas músicas que gostamos, nos produtos que compramos, nos candidatos políticos que escolhemos e até mesmo em quem somos - aquilo que chamamos de "personalidade" - costumamos achar que tudo isso é feito de forma puramente independente de qualquer influência. Acreditamos no poder de um "eu" absoluto, alegando que nossas ações são escolhas exclusivamente nossas e de mais ninguém. Se preferimos rock ao funk, tendemos a dizer que é porque temos um bom ouvido, um gosto musical mais refinado e diferenciado. Se somos tímidos, extrovertidos ou cabeças quentes, podemos recorrer a uma ideia inatista que está arraigada em nossa cultura e afirmar que nascemos dessa forma, que "é algo do nosso interior" e nada podemos fazer para mudar. Quando simpatizamos com as ideias deste ou daquele candidato a presidente, dizemos que é porque pensamos igual a ele - ou que ele apresenta ideias e valores iguais aos meus. Acontece que nossas preferências estéticas, ideológicas e até a noção de "eu" que temos de nós mesmos, não são formadas sem influência externa ou de terceiros. Os grupos nos quais nos inserimos, as pessoas com quem convivemos, os livros que lemos, os filmes que vemos, as instituições que frequentamos, tudo isso forma aquilo que pensamos e fazemos. Sim, nossas escolhas não são totalmente nossas. E não, não somos tão livres quanto pensamos ser. Eu sei que essa parece uma ideia muito ruim, afinal, quem não quer ser livre? Entretanto, entender que não somos tão livres assim, numa perspectiva analítico-comportamental, pode ser paradoxalmente libertador.


Watchmen é uma dessas histórias onde a liberdade está cerceada em um futuro distópico e acabou se tornando item raro, disputada por pessoas comuns e superpotências mundiais. Na história em quadrinhos escrita por Alan Moore com arte de Dave Gibbons, vemos um mundo onde super-heróis são pessoas normais, homens e mulheres vestindo trajes extravagantes, mas sem nenhum super poder. Eles são, como diria Nietzsche, humanos... demasiadamente humanos. Ao contrário dos super heróis nobres e cheios de valores elevados em prol do bem comum, Watchmen apresenta justiceiros mascarados que são tão falhos quanto qualquer vilão - repletos de corrupção, cobiça, transtornos e sangue nas mãos. Dr. Manhattan é o único personagem da história que tem super poderes - poderes dignos de um deus, diga-se de passagem. Ele é capaz de manipular a matéria a nível subatômico, tendo o poder de criar qualquer coisa do nada ou de alterar ou destruir objetos e pessoas a seu bel prazer. Por enxergar a realidade a nível subatômico, Dr. Manhattan, que um dia já foi um humano, pode ver e prever tudo que foi, é e será. O tempo para ele não é nenhum mistério e não existe nenhum acontecimento que lhe seja surpresa. Com tanto poder assim, Dr. Manhattan é o único personagem de Watchmen que seria realmente capaz de solucionar os problemas da humanidade, não fosse por um motivo: ele desistiu da raça humana. Depois de participar de guerras e de testemunhar as atrocidades que os homens fizeram uns aos outros, Manhattan perde a fé nos homens, lava as mãos e parte para marte, onde se isola tal como um eremita e planeja criar um novo mundo a partir do zero, lá mesmo no planeta vermelho.
É nessa referida parte da história que Dr. Manhattan profere uma de suas muitas frases de alto impacto, ele diz que tudo está predeterminado, inclusive suas próprias ações. Ora, se até o ser mais poderoso do universo está sujeito a certas leis da física, da química e da biologia, o que dizer de nós, meros mortais? Se tudo e todos estão presos a certas determinações da natureza e da sociedade, o que resta a nós fazermos? Somos então meros robôs sem reação que devemos assistir passíveis os acontecimentos, somente aceitando-os (que dói menos)? É o próprio Dr. Manhattan quem revela a resposta: embora sejamos, em certa medida, todos marionetes, enxergar nossas cordas faz toda diferença.

Skinner publicou, em 1971, uma obra chamada Beyond Freedom and Dignity cuja tradução brasilera, O Mito da Liberdade, gerou polêmicas, críticas e incompreensões por parte dos opositores do behaviorismo radical. Muitas pessoas julgaram o livro pelo título (que aliás, nas edições mais recentes segue uma tradução literal do original em inglês) ou compreenderam mal a obra. Não demorou a surgir pessoas alegando que Skinner era contra a liberdade, que fazia jus aos regimes ditatoriais e opressores. Outros, ainda hoje, dizem que Skinner relega ao homem um papel mecânico e passivo. Nada disso está correto. Skinner é um grande entusiasta da liberdade e da dignidade humana, mas defende que esta só poderá ser realmente alcançada quando deixarmos de lado as visões românticas e internalistas sobre o tema.
A literatura da liberdade nunca afrontou de fato as técnicas de controle não geradoras de fuga ou contra-ataque, porque sempre tratou do problema em termos de espírito e sentimentos. (Skinner, 1971, p.32)
Neste ponto, o autor diz que muito se tem dito sobre a liberdade e por conseguinte sobre a opressão, mas pouco se tem oferecido em termos práticos mecanismos libertários que possam ir além da mera destruição das agências de poder e de controle. Isso, pois, "controle" é uma palavra que para muitos tem um sentido pejorativo. Controle geralmente é apresentado como o oposto de liberdade e provoca horror em muita gente. Todavia, nem todo controle é necessariamente ruim. Muitas práticas sociais que geram bem estar para a humanidade, por exemplo, são baseadas em um sistema de controle. Quando falamos em controlar as finanças domésticas para não ficar no vermelho; quando falamos em controlar nossa alimentação para não ter problemas de saúde ou quando falamos em controlar o tempo que passamos nas redes sociais para não atrapalhar os estudos, estamos falando de sistemas de controle benéficos e necessários. Assim, diz Skinner:
O problema é libertar os homens, não do controle, mas de certos tipos de controle, e só poderá ser solucionado se nossa análise puder considerar todas as conseqüências em jogo. (Skinner, 1971, p.35)
Considerar todo e qualquer sistema de controle como ruim pode ser tão nocivo quanto considerar todo e qualquer sistema de controle como bom. Além disso, é uma ilusão achar que não somos controlados em alguma medida - por outras pessoas, instituições, agentes governamentais, elementos culturais e religiosos, etc. Como disse o Dr. Manhattan, somos marionetes - e vejo nessa asserção duas opções: podemos continuar ignorando o fato de que existem cordas nos manipulando, e alheios a isso continuamos sendo manipulados sem perceber; ou admitimos e enxergamos nossas cordas para que possamos fazer algo a respeito, pois o homem, embora seja perpassado por essas cordas, não é um ser totalmente passivo. Skinner e a análise do comportamento atestam nossa capacidade de modificar o mundo e a nós mesmos. Assim sendo, ao enxergar nossas cordas podemos escolher qual delas vamos cortar e jogar fora - aquelas que não nos servem mais. Podemos igualmente escolher algumas cordas que são benéficas e necessárias para nos estabelecer certo equilíbrio na vida e mantê-las conosco. Podemos fazer nós em cordas anteriormente descartadas, podemos, em suma, se não ficar totalmente livre de todas as cordas, ao menos escolher qual delas queremos para nossas vidas.

Elton SDL

Se é pop, a gente analisa!

REFERÊNCIAS

SKINNER, B.F. O mito da liberdade (2ª ed.). Rio de Janeiro: Bloch. (Original publicado em 1971)
SKINNER, B.F.  O Eu iniciador. In_____Questões recentes na Análise Comportamental. Campinas, SP: Editora Papirus (1991).

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