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A vida, se souberes viver, é longa



Obra: Para sempre Alice
Formato: Filme
Ano: 2014
Roteiro: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Direção: Richard Glatzer


Toda a minha vida eu acumulei memórias - elas se tornaram, de certo modo, os meus bens mais preciosos.

  Alice Howland


Imagine que você está nesse exato momento caminhando em sua praia preferida. Aproxime-se do mar e, rente à água, olhe para seus pés tocando na areia, sentindo o toque frio e macio da água acariciando seus pés. Ao olhar para o lado, o oceano desenha uma linha no horizonte e o caminhar parece tornar a vida mais leve. Ande mais alguns passos e após 5 ou 6 segundos, olhe para trás: suas pegadas foram rapidamente apagadas pelo mar.


Vivi essa experiência durante cinco dias de julho deste ano, no Ouricuri Litoral Sul. Durante a maior parte dos 150km evitei pisar na areia fofa. O motivo? Bom, 6kg nas costas e o meu peso tornavam o passo-a-passo na areia fofa, embora plana, uma tarefa árdua; o caminhar era mais lento e facilmente eu ficaria para trás. Depois de algumas dezenas de quilômetros, já não mais sentimos a dor com a mesma intensidade; passamos a ficar sob controle de outros aspectos do ambiente e as reflexões tornam-se constantes.


Notei que, de fato, era mais confortável caminhar rente ao mar pois evitaria as dores musculares da perna e sentiria os prazeres de um toque frio da água sobre meus pés quentes e cansados. No entanto, as pegadas que deixava na areia eram rapidamente apagadas. A água e seus prazeres levavam em alguns segundos as marcas que eu deixara. Por outro lado, o árduo caminhar na areia fofa deixava pegadas que, por estarem longe da água, duravam muito tempo e ajudavam os meus amigos a caminhar também - pelo menos até o outro dia, até a maré encher.


Pode não parecer, mas é uma posição difícil ter de escolher entre a areia fofa e a areia rente ao mar quando o objetivo é concluir 150km caminhando em 5 dias. Cada escolha produz consequências: andar confortavelmente na areia mais firme e forçar o tornozelo com o terreno inclinado ou andar na areia fofa, forçar o músculo e ficar um pouco para trás do grupo, num terreno plano e também confortável? Sartre já dizia que a vida é um equilibrar-se entre escolhas e consequências. 

O fato é que o desconforto é inerente a qualquer experiência que deseje continuar, em memória, registrada no avesso da vida. E quando não mais for possível criar memória? Quais pegadas deixarei?

Para sempre Alice mostra em detalhes uma vida que passa rapidamente. O filme não é mais um longa qualquer que retrata a fragilidade da vida; retrata, na verdade, o aprender a viver com a impossibilidade de criar memória. Alice Howland (Julianne More) é professora de linguística de Harvard, dona de um estilo de vida desejável e uma bela família quando, aos 50 anos, recebe o diagnóstico de Alzheimer. O diagnóstico, ao meu ver, enquadra a personagem e o telespectador num paradoxo sutil. Afinal, sua vida vira ao avesso quando recebe a notícia de que seu destino, assim como tudo o que construiu até então, poderia cair no esquecimento.



Trecho em que Alice discursa sobre a doença


Se você já assistiu ao filme deverá ter notado como a maior angústia da personagem, no primeiro momento, gira em torno de esquecer-se de quem é. O foco está na percepção de que tudo o que construíra até então poderia se esvair com o tempo, fugindo totalmente do seu controle. A questão é que essa realidade não está tão distante de nós. A maioria das pessoas como eu e você talvez estejam pouco se importando em criar memórias no seu dia-a-dia. 

O fato é que seremos lembrados, por pouco ou muito tempo, pelos demais; a diferença estará nas pequenas ações que realizamos todos os dias, principalmente as que geram impacto na vida do outro. A isso se referiu meu mestre Tamuia Caambembe ao dizer, certa vez: “Quando tudo em nós for silêncio o que e a maneira como fizemos será nosso eco no mundo.”

Talvez a única diferença entre Alice e todos nós é o fato de que ela tem a todo momento a certeza de que sua vida é breve… e se preocupa com isso e se preocupa com a memória de si, no mundo. Embora ela diga a si mesma que esquecerá de si, sua vida estará registrada aos que conviveram com ela. 

Em que Alice me inquieta? 

Convido-o a refletir: se você tem a possibilidade de criar memórias e memórias significativas aos demais, tens feito isso? O caminho que tens trilhado é o prazeroso e efêmero ou o caminho árduo e duradouro? Assim como fiz no Ouricuri caminhada este ano, não corramos o risco de perder a possibilidade de deixar nossos rastros, as pegadas que auxiliarão os que virão depois de nós. 

Assim, ainda que um dia, seja pela velhice ou qualquer outra limitação, não recordes de quem és ou perca a oportunidade de contar suas histórias, outros lembrarão do caminho que percorreu e, de fato, serás lembrado para além do tempo de sua vida. 

Não somos privados, mas pródigos de vida. Como grandes riquezas, quando chegam às mãos de um mau administrador, em curto espaço de tempo, se dissipam, mas, se modestas e confiadas a um bom guardião, aumentam com o tempo. Assim a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir.

Sobre a brevidade da vida
Sêneca


Anne Maia


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