Header Ads

Afinal, o que torna alguém psicopata? [Parte 2]







Obra: La Casa de Papel
Formato: Série
Ano: 2017
País de Origem: Espanha
Criador: Álex Pina
Produtora: Vancouver MediaAtresmedia


“Um psicopata ama alguém da mesma forma como eu, digamos, amo meu carro – e não da forma como eu amo minha mulher. Usa o termo amor, mas não o sente da maneira como nós entendemos. Em geral, é um sentimento de posse, de propriedade. Se você perguntar a um psicopata por que ele ama certa mulher, ele lhe dará respostas muito concretas, tais como “porque ela é bonita”, “porque o sexo é ótimo” ou “porque ela está sempre lá quando preciso”. As emoções estão para o psicopata assim como está o vermelho para o daltônico. Ele simplesmente não consegue vivenciá-las”.
Robert Hare, autor de Psychology of Criminal Investigations


Olá, queridos leitores e leitoras! Hoje vamos à segunda parte da discussão sobre o comportamento patológico numa perspectiva comportamental! Se você ainda não leu o primeiro artigo desta série, não custa nada conferir, não é? Os artigos são interdependentes e lá eu faço uma análise introdutória dos comportamentos apresentados por Kevin (Precisamos falar sobre o Kevin). Caso já tenha lido o artigo, segue com a gente que o papo vai ficar ainda mais instigante.



Alexander DeLarge (Laranja Mecânica)



Existem mentes programadas para o crime?



O interesse das pessoas em identificar um perfil comportamental do criminoso parece ter ganhado força com a produção em massa de séries que abordam crimes violentos através de uma investigação psicológica, à exemplo de Criminal Minds (CBS - 2005) e, mais recentemente, Mindhunter (Netflix - 2017). Personagens como Alexander DeLarge (Laranja Mecânica), Dexter e Hannibal Lecter são clássicos que consagraram o psicopata tornando-o uma figura quase mítica, que de tão astuta não se permite o controle e a previsão de suas ações. Esse tipo de entretenimento prende um grande público e a noção de que o psicopata é um assassino frio e incontrolável permanece. Alguns Serial Killers apresentam “traços” de psicopatia e certas questões emergem: “um psicopata já nasce assim?”, “existem mentes naturalmente doentias ou é possível ser curado?”, “existe reabilitação para psicopatas?” Essas perguntas são válidas e merecem uma atenção especial.

Para que nossa análise não se perca entre tantas outras, é preciso ficar claro que o que discutimos nessa série vai na contramão de um senso comum sobre o que é ser psicopata ou sobre o comportamento patológico. No primeiro artigo, por exemplo, apresentamos algumas interpretações correntes sobre a conduta de Kevin (Precisamos falar sobre o Kevin) de base psicanalítica. Destacamos, no entanto, uma outra proposta de compreensão baseada em evidências, com enfoque maior no contexto em que Kevin estaria inserido. Argumentamos que as respostas para as perguntas acima devem ser encontradas na história de interação da pessoa com seu ambiente e não em um suposto “aparelho psíquico” interno ao sujeito que de algum modo coordena suas ações. Munidos deste olhar, como compreender então o comportamento do psicopata?  


Hannibal Lecter


Para nos ajudar a responder essa pergunta, convidaremos um personagem que de tão sarcástico e astuto, cativou milhões de fãs na série de língua estrangeira mais assistida na Netflix, “La casa de papel”. É dele mesmo que estamos falando: Berlin. Discutiremos alguns comportamentos do personagem associados e características relacionadas a psicopatia sem nos atermos a detalhes sobre a história do termo ou às problemáticas relacionadas ao diagnóstico. Ao fim, será possível encontrar indicações de artigos para um estudo mais aprofundado. Outros materiais poderão ser solicitados via e-mail!



Berlin é o tipo de personagem que desperta amor e ódio. Uma hora parece ser extremamente empático, outras vezes sádico e em outras malévolo. Ele se encaixaria num diagnóstico de Psicopatia?


É comum a ideia de um ser sádico, cruel, apático, inabalável e inconsequente associada à figura do psicopata. Embora seja um termo famoso nas séries, filmes e em livros mais populares, a Psicopatia assim como conhecemos no senso-comum está longe de representar um consenso na comunidade médica. O termo técnico geralmente associado à psicopatia é o Transtorno de Personalidade Antissocial (TPA), descrito no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais - DSM. No entanto, é preciso ficar claro que são termos distintos, que nascem em contextos diferentes na história da psiquiatria e da psicologia forense, embora nomeiem padrões de comportamento semelhantes.

Segundo a quinta edição do DSM, o TPA consiste em um padrão de violação de direitos e regras sociais. Para ser diagnosticado é necessário apresentar três ou mais dos seguintes critérios:

1. Fracasso em ajustar-se às normas sociais relativas a comportamentos legais, conforme indicado pela repetição de atos que constituem motivos de detenção.

2. Tendência à falsidade, conforme indicado por mentiras repetidas, uso de nomes falsos ou de trapaça para ganho ou prazer pessoal.

3. Impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro.

4. Irritabilidade e agressividade, conforme indicado por repetidas lutas corporais ou agressões físicas.

5. Descaso pela segurança de si ou de outros.

6. Irresponsabilidade reiterada, conforme indicado por falha repetida em manter uma  conduta consistente no trabalho ou honrar obrigações financeiras.

7. Ausência de remorso, conforme indicado pela indiferença ou racionalização em relação a ter ferido, maltratado ou roubado outras pessoas.

B. O indivíduo tem no mínimo 18 anos de idade.

C. Há evidências de transtorno da conduta com surgimento anterior aos 15 anos de idade.

D. A ocorrência de comportamento antissocial não se dá exclusivamente durante o curso de esquizofrenia ou transtorno bipolar.


A pessoa com personalidade antissocial, ainda conforme as características diagnósticas, parece não se preocupar em como está sendo vista pelos outros, em manter uma boa aparência (talvez aí se encaixaria o personagem de Alex, em Laranja Mecânica). A sensação de domínio, de poder sobre o outro (e não o repúdio, como parece ser o caso do TPA), custando até a vida ou a saúde deste, parece ser uma resposta emocional comum em pessoas classificadas como psicopatas.

Em alguns momentos parece óbvio que Berlin é incapaz de sentir a dor de outros, especialmente dos reféns. Em outros, é totalmente hábil para se relacionar em situações cotidianas, como aparece nos flashbacks do treinamento do grupo. Não é impulsivo, pelo contrário, faz tudo muito bem planejado e fora capaz de roubar diamantes, sem que se arrependesse um momento sequer por isso. Por outro lado, em um ato aparentemente heroico, conduz tranquilamente Ariadna a uma das cenas talvez mais frustrantes que tivera em sua vida, ajudando-o a ganhar tempo enquanto ela estaria horrorizada. Ele sabe que causa medo aos reféns e não se importa com isso; em outros momentos é bondoso e paciente. O personagem até pode conter traços de psicopatia ou de TPA, mas não são o suficiente para nos deixar atônitos, horrorizados – talvez porque ele não se alimenta de carne humana (alô, Hannibal!).


Como é possível que alguém seja capaz de “cometer atrocidades” somente para sentir prazer em dominar o outro?


Essa pergunta é interessante porque não nos detém somente à categorização do comportamento, mas à sua origem e natureza. Como dissemos no primeiro artigo, todo comportamento, seja ele considerado patológico ou não, deve ser analisado a partir de três blocos de determinantes ambientais que formam o contexto em que esse comportamento emergiu ao longo da história: o bloco filogenético (contexto ambiental que selecionou comportamentos úteis à sobrevivência da espécie), a ontogênese (contexto interpessoal que seleciona comportamentos na interação da pessoa com seu ambiente ao longo da vida) e cultura (contexto grupal que seleciona comportamentos da pessoa enquanto membro de um grupo).

Por exemplo, quando dizemos que alguém está depressivo, devemos primeiro definir quais comportamentos a pessoa emite (ex.: chorar várias vezes ao dia, permanecer dias sozinha, relatar frequentemente que não tem motivos para viver, etc), e em segundo momento analisar em qual contexto esses comportamentos emergem e o que acontece após esses comportamentos. Nosso foco de análise estará prioritariamente no contexto em que a pessoa está inserida. Só assim é possível compreender as causas de um comportamento e o que o mantém. Ciente disso, é possível sim que alguém aja de um modo “disruptivo” e tenha prazer nisso; no entanto, somente uma análise minuciosa do ambiente vivenciado pelo sujeito vai nos possibilitar entender quais foram os determinantes filogenéticos, ontogenéticos e culturais que instalaram e mantém esse comportamento.

No caso de Berlin, é praticamente impossível fazer uma análise rica em detalhes pois temos acesso a pouquíssimo de sua vida anterior ao assalto. O que sabemos, no entanto, nos indica um provável contexto de privação ou de punição que tornou mais provável a busca constante de afirmação social. Além disso, sempre que agia de modo calculado e controlava a si mesmo, conseguia não só itens raríssimos quanto diminuía as chances de ser pego e sofrer punições sociais. Temos dois exemplos que indicam um contexto motivador para instalação de um padrão comportamental e um contexto que o mantém. Vemos, assim, que a personalidade, tal como é frequentemente vista, não é uma entidade inflexível. É um conjunto de comportamentos que pode se modificar a depender do quão vantajoso for para o indivíduo no contexto em que vive.

Então quer dizer que não existe uma causa biológica para a psicopatia? Tudo depende do ambiente?

É uma ótima pergunta! Estudos têm demonstrado alterações anatômicas em certas regiões cerebrais de pessoas consideradas psicopatas. A amígdala é um agrupamento de neurônios pertencente ao sistema límbico, uma área do cérebro mais intimamente relacionada às respostas emocionais e à reatividade a estímulos ameaçadores à sobrevivência do organismo.

Costuma-se dizer que os psicopatas não sentem medo e podem lançar-se a eventos potencialmente perigosos ou nojentos para a maioria das pessoas; nesse sentido, tem-se observado uma redução em termos de espessura e tamanho das amígdalas de psicopatas e uma fraca conexão entre a região límbica e o córtex pré-frontal. Isso pode indicar uma característica fisiológica que torna mais provável o que as pessoas chamam de “pensar friamente”, o agir sem pensar “na dor do outro”, o ver alguém sofrendo e não sentir absolutamente nada com isso.



A conectividade funcional entre a amígdala direita e o córtex pré-frontal é reduzida nos psicopatas. Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3311922/ (Reduced Prefrontal Connectivity in Psychopathy)

Embora essas correlações não expliquem o se comportar como um todo, um organismo modificado por certas condições ambientais ou genéticas também poderá ser contexto para redução da frequência de certos comportamentos. Além disso, a Epigenética tem demonstrado que mudanças ambientais podem alterar a expressão gênica e o conceito de plasticidade neural favorece a concepção de que nossa experiência no mundo altera nossa estrutura e conexões cerebrais. Por isso, ao analisar o comportamento é preciso levar em considerações todas as variáveis ambientais que podem ter afetado o organismo de modo duradouro (como um acidente ou um abuso durante a infância).

Berlin apresentava uma doença fictícia neurodegenerativa chamada Miopatia de Hellmer; se fosse real, seria interessante estudar as diversas alterações da doença, o comportamento de Berlin anterior ao diagnóstico, histórico de doenças e uso de medicações, eventos importantes da infância e etc. Todas essas informações possibilitariam identificar quão suscetível o personagem seria a determinados eventos ambientais futuros.

Esperamos ter consolidado a compreensão de que o ambiente possui um papel crucial na análise dos comportamentos ditos patológicos. Compreender o organismo como um todo, em sua história genética e ambiental, favorece identificar as modificações que tornam o organismo mais ou menos sensível aos estímulos ambientais. Nesse sentido, existem evidências de eficácia das intervenções comportamentais em pessoas diagnosticadas com esquizofrenia, no manejo de comportamentos delirantes, ansiosos ou compulsivos. Esse é um tema supimpa e merece um artigo a parte, não é não? Talvez seja abordado no próximo ou no último artigo da série, mas isso você vai descobrir nos acompanhando! ;)

Se você tem alguma sugestão de leitura, comentário, crítica ou elogio, fique à vontad! Comente aqui embaixo e nos acompanhe nas redes sociais porque

se é pop, a gente analisa!

Anne Maia


________

Sugestões de leitura

Banaco, Roberto Alves, et al. (2012) Personalidade. In: Hubner, Maria Marta Costa & Moreira, Márcio Borges (Org.). Fundamentos de Psicologia: temas clássicos da psicologia sob a ótica da análise do comportamento. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, cap.10, p.144-153.


DEL-BEN, C. M.. Neurobiologia do transtorno de personalidade anti-social. Rev. psiquiatr. clín., São Paulo , v. 32, n. 1, p. 27-36, 2005 . Available from <https://goo.gl/SomdLR>. Acesso em 01 Jul. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832005000100004.

HAUCK FILHO, N.; TEIXEIRA, M. A. P.; DIAS, A. C. G. Psicopatia: o construto e sua avaliação. Aval. psicol., Porto Alegre , v. 8, n. 3, p. 337-346, dez. 2009 . Disponível em <https://goo.gl/p9xLuR>. Acesso em 01 jul. 2018.

MORANA, H. C. P.; STONE, M. H.; ABDALLA-FILHO, E. Transtornos de personalidade, psicopatia e serial killers. Rev. Bras. Psiquiatr. São Paulo, v. 28. p. 74-79. Disponível em: <https://goo.gl/YgnxSY>. Acesso em: 01 jul. 2018.

VASCONCELLOS, S. J. L. et al . A cognição social dos psicopatas: achados científicos recentes. Estud. psicol. (Campinas), Campinas ,v. 34, n. 1, p. 151-159, mar. 2017 . Disponível em <https://goo.gl/wVByf6>. Acesso em 05 jul. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/1982-02752017000100015.

Nenhum comentário