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O lado ruim de ser bonzinho demais

Obra: Aggretsuko 
Formato: Série animada
Ano: 2018
Produção: Netflix
Roteiro: Rarecho
Direção: Rarecho

Você já comprou um produto só para evitar o constrangimento de sair de uma loja sem levar nada? Já pegou mais trabalho do que deveria apenas para não confrontar seu chefe? Alguma vez teve dificuldade em dizer "não" e aceitou algo a contragosto só para não machucar outra pessoa? Se você respondeu afirmativamente pelo menos uma dessas perguntas, parabéns: você tem muito em comum com um panda vermelho!

Não este....

Este!!!

Eles não são fofos? Eu sei, eu sei, eles são. Mas ao final deste texto aposto que você não vai querer se parecer muito com eles. 

Aggretsuko é um daqueles animes (desenhos animados japoneses) que você pensa ter sido feito para crianças, afinal, os traços simples e a protagonista cativante esbanjam um clima de meiguice e ingenuidade - além disso, a obra é criação da mesma empresa responsável pela personagem Hello Kitty! A suposta infantilidade, porém, cai por terra quando assistimos ao primeiro episódio da animação e descobrimos uma história tragicômica com a qual qualquer adulto (especialmente aqueles que estão inseridos no mercado de trabalho) se identifica automaticamente. 

A história narra a rotina de Retsuko, uma panda vermelha que vive frustrada com o trabalho e que utiliza as horas livres em um karaokê, cantando heavy metal para aliviar o estresse diário. Retsuko é descrita como uma boa garota, certinha e esforçada, pois nunca diz "não" para seus chefe abusivo, engole em silêncio as afrontas dos colegas de trabalho e nas mais diversas situações de conflito do dia-a-dia, ela prefere ceder do que bater de frente. Alguns amigos a reforçam, dizendo que esta característica é uma qualidade. Mas será que é mesmo?

Você provavelmente já deve ter ouvido falar da tal da assertividade, palavra muito em voga nos dias de hoje. O que falta a Retsuko é justamente assertividade. Robert e Alberti Michael L. Emmons (1978) definem três grandes blocos de comportamentos que todos nós emitimos, são eles: comportamento passivo, assertivo e agressivo. O comportamento passivo está presente em pessoas que sempre "baixam a cabeça" para as outras, que não conseguem se impor quando necessário, que têm dificuldade em dizer "não" quando algo a desagrada. Retsuko apresenta esse padrão de comportamento, especialmente nos primeiros episódios: submete-se a abusos verbais e morais no trabalho sem reagir, aceita fazer o cartão de crédito de uma loja por não querer contrariar a vendedora, "guarda para si" as frustrações dessas situações e acaba explodindo cantando heavy metal em um karaokê. No karaokê, a doce panda vermelha se transforma e parece mais um urso psicopata repleto de fúria, bradando colericamente canções que falam sobre seu cotidiano aversivo. Nesse contexto, Retsuko emite um padrão de comportamento agressivo.



É muito comum que pessoas não-assertivas oscilem entre a passividade e a agressividade, isto é: em alguns momentos sejam "certinhas" e "boazinhas" demais, não sabendo como se colocar e em outros contextos "estourem" com facilidade, gritando e ofendendo outrem. Isso acontece porque alguns contextos são estímulos para a emissão de certos comportamentos que produzem benefício para o sujeito ou eliminem alguma ameaça. Ser assertivo então é estar no meio termo entre a passividade e a agressividade, é buscar um ponto de equilíbrio onde seus desejos e opiniões sejam respeitados e satisfeitos sem que isso machuque o outro e vice-versa. Mas em alguns momentos esse equilíbrio infelizmente não será possível, pois pode ser que uma das partes envolvidas na situação não esteja disposta a ser educada e compreensiva. 

Ser assertivo significa também que em algumas situações você precisará ser mais agressivo ou mais passivo. Numa situação na qual o sujeito está sendo claramente abusado, ele pode e deve se portar com mais firmeza. Retsuko recebe piadas machistas do chefe numa confraternização da empresa, fica calada e a situação se propaga. Nesse momento ela deveria ter sido mais dura, mais "agressiva", demonstrando sua insatisfação e o quanto o chefe estava sendo indelicado. Em outros momentos, quando estamos claramente errados e somos repreendidos, por exemplo, não resta escolha a não ser reconhecer nosso erro e pedir desculpas. Ser assertivo, em suma, é a capacidade de discriminarmos o ambiente e as contingências com inteligência, avaliando qual é a postura mais adequada para adotar conforme a situação. Algumas pessoas possuem grande dificuldade para aprenderem a ser assertivas, pois aprenderam ao longo de suas vidas que deviam ser "certinhas" e "boazinhas" e nunca revidar. Outras, foram ensinadas a sempre gritar, levantar o dedo e reclamar, independentemente de estarem certas ou erradas. Isso exige delas o acompanhamento terapêutico analítico-comportamental, no qual serão executados diversos treinamentos em habilidades sociais a fim de modelar o comportamento passivo ou agressivo, em comportamento assertivo. Mas apesar da assertividade ser o modelo comportamental mais adequado e vantajoso para as relações humanas, porque muitos, assim como Retsuko, são tão agressivos ou passivos (o famoso 8 ou 80)?




Apesar do sofrimento que é para Retsuko ser tão passiva, ela possui ganhos com isso. Pode parecer loucura, mas um dos princípios básicos do comportamento é o de que nenhum comportamento se mantém do nada, ele precisa de algum ganho ou precisa eliminar alguma ameaça para seu emissor para continuar existindo. Retsuko sofre por ser tão "boazinha", isso é visível ao longo dos episódios. Ela luta e se esforça para modificar esse padrão passivo que foi aprendido por ela ao longo da vida. Mas, por mais danoso que seja para Retsuko ser tão "certinha" e passiva, é muito mais difícil e aversivo para ela confrontar as situações que a incomodam. Quando o chefe a trata de forma inoportuna, quando ela fica sobrecarregada com o trabalho dos outros ou quando uma vendedora irritante tenta empurrar um produto a contragosto, Retsuko certamente considera essas situações muito aversivas. Mas para ela é muito mais aversivo confrontar o chefe, os colegas de trabalho e a vendedora chata. Entre um incômodo e outro é como se ela escolhesse o que considera menos aversivo. Então ao dizer "sim" para tudo e todos, ela sofre, mas também se livra do que acha que seria um sofrimento maior: o enfrentamento, o bater de frente com o chefe, com os colegas de trabalho e com a vendedora da loja. Temos em Retsuko um padrão de comportamento mantido por reforçamento negativo, ou seja, seu comportamento passivo se mantém porque com ele Retsuko se livra de alguns aversivos do ambiente. Mas isso tem um preço bastante alto para ela. 

Outro ganho que Retsuko tem ao ser passiva é o elogio de algumas pessoas, destacando sua postura como uma qualidade. Nesse caso seu comportamento também é mantido por reforçamento positivo, uma vez que ela ganha comentários que enaltecem sua passividade - uma armadilha muito, muito perigosa (já falamos sobre armadilhas de reforçamento aqui). 

Felizmente, no decorrer da série Retsuko vai conhecendo pessoas e se envolvendo em contextos que começam a modelá-la em prol de um comportamento mais assertivo. Retsuko aprende a se impor mais, a confiar mais em si mesma e se torna de fato empoderada. Isso só é possível porque as contingências de seu ambiente começaram a mudar, não porque existe um inconsciente, uma força interna que precisava ser desabrochada ou algo dessa espécie. Comportamentos só podem ser mudados se forem mudadas as contingências nas quais o sujeito está inserido. Retsuko tinha "força de vontade" para a transformação pessoal, mas isso por si só não foi suficiente. A partir do momento em que ela conhece novas pessoas que a fornecem modelos de assertividade e enfrenta gradualmente as situações aversivas, aí sim, a evolução acontece. Isso requer tempo e esforço por parte das pessoas. Não existem fórmulas mágicas, rápidas, indolores e milagrosas, mas com coragem e perseverança podemos aprender a produzir uma vida mais saudável e muito mais assertiva. Assim é para a Análise do Comportamento, porque

Se é pop, a gente analisa!

Elton SDL


REFERÊNCIAS

ALBERTI, R. E; EMMONS, M. L. Comportamento assertivo: um guia de auto-expressão. Belo Horizonte: Interlivros, 1978.

ALVES, G. O lado mau da branca de neve. Disponível em: http://www.cadaminuto.com.br/noticia/311061/2017/10/08/o-lado-mau-da-branca-de-neve

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