Header Ads

Afinal, o que torna alguém psicopata? [Parte 1]


 

Obra: Precisamos Falar sobre o Kevin 
Formato: Filme
Ano: 2011
Produção: Jennifer Fox, Luc Roeg e Robert Salerno 
BBC Films, UK Film Council e Artina Films Independent
Roteiro: Lynne Ramsay e Rory Kinnear
Direção: Lynne Ramsay


Olá queridos leitores e leitoras da ACPop! Hoje daremos início a uma série de artigos sobre o comportamento patológico analisado numa perspectiva comportamental. O objetivo dessa série é analisar personagens com traços de alguma psicopatologia a partir dos pressupostos da Análise do Comportamento. Ressaltamos, no entanto, que não é nosso objetivo esgotar a discussão, somente introduzí-la. Assim, materiais de referência podem ser solicitados caso você deseje se aprofundar sobre o que será dito aqui. Como é um tema polêmico e caro à Psicologia, resolvemos dividí-lo em uma série, tal como a série de artigos sobre Black Mirror. E para começar, vamos nos ater a um filme intrigante, pesado e misterioso. E aí, vamos falar sobre Kevin?

Precisamos falar sobre o Kevin (2011) é um drama psicológico baseado no best seller de Lionel Shriver. O longa retrata a relação entre Kevin (Ezra Miller) e sua mãe (Tilda Swinton), relação esta que culmina em desfechos fatais. ATENÇÃO: este artigo conterá SPOILERS! Kevin apresenta comportamentos violentos logo na infância, parece ser pouco afetado e empático com sua mãe. Quando adolescente, Kevin deixa uma embalagem de ácido em cima de um balcão na cozinha. Sua irmã brinca com o líquido e acidentalmente cai sobre seu olho, perdendo-o. Em uma conversa posterior, Kevin demonstra não se importar com o ocorrido. Todos nós estranhamos e passamos a nos perguntar: o que acontecerá com Kevin? 




Em diversas análises psicológicas encontraremos nesses comportamentos sinais de psicopatia ou algum distúrbio psicológico; é comum, inclusive, encontrar explicações de base psicanalítica para estes comportamentos. Por exemplo, há os que concebem uma explicação de Melanie Klein, psicanalista austríaca pós-freudiana, sobre a relação entre a mãe e seu filho. Segundo esta análise, os traços patológicos seriam fruto da rejeição que Eva teria de seu filho, pois durante a gravidez não estava feliz e se sentia despreparada para tê-lo. Essa interpretação tem como premissa a ideia de que a relação da mãe com o bebê é a base para a vida futura, pois para ela o bebê teria um conhecimento inconsciente inato sobre a existência da mãe. O bebê tornar-se-ia esquizo-paranoide uma vez que estaria privado de cuidados emocionais, toque, amor, carinho. Segundo essa teoria, o bebê veria o mundo como ameaçador devido à falta de acolhimento, o que geraria choro excessivo. Uma vez premeditado o assassinato poucos dias antes de completar 16 anos, Kevin teria por objetivo atingir a mãe e puni-la por tê-lo rejeitado quando mais novo. Mas as agressões não terminam por aí: ele mata o pai e a irmã, o que recai sobre a mãe a culpa pela criação “de um monstro”. Toda essa explicação, no entanto, apresenta certos limites uma vez que não deixa claro se é ou não possível "deixar" de ser psicopata ou se seria relevante algum tipo de acompanhamento psicológico. Além disso, é feita através de suposições sem evidências, apenas em interpretações lógicas. Seria possível, então, uma explicação científica sobre os comportamentos patológicos?

O filme possibilita discutir sobre alguns temas relevantes ao relacionamento entre pais e filhos como o estabelecimento de limites e a repercussão da ausência dos pais nos primeiros meses e anos de vida, por exemplo. A depressão pós parto e o alto custo de resposta em visualizar comportamentos potencialmente perigosos no filho são outras possibilidades de discussão. Uma resenha escrita por Felipe Picon, psiquiatra da infância e da adolescência pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul finaliza com a seguinte reflexão: 

Teria Kevin se beneficiado, assim como sua mãe, família e por final toda a sociedade, se suas dificuldades tivessem sido abordadas o mais cedo possível? Poderia uma abordagem terapêutica com foco na interação mãe-bebê ter alterado favoravelmente o curso de seu desenvolvimento? Qual seria o papel dos terapeutas, psicólogos e psiquiatras em situações como as descritas no filme? Até que ponto a ausência de um trabalho terapêutico focado no entendimento desse relacionamento e na expressão do afeto poderia ter alterado o desfecho fatal? Ainda não sabemos quanto do comportamento antissocial é decorrente do ambiente e quanto já é inato ao indivíduo. Essa angústia, infelizmente, seguirá conosco mesmo após o final do filme.




Vocês me perguntariam: "Mas Anne, o que a ciência tem a dizer sobre o comportamento antissocial do garoto?”, “Como explicar o assassinato de tantas pessoas se não supormos uma mente doentia, obsessiva, egoísta?” “Um psicopata é necessariamente um Serial Killer?” “Se Kevin era estranho ainda criança, ele já nasceu ou aprendeu a ser assim?” Ótimas perguntas! São tão boas e instigantes que necessitam respostas complexas. Sempre nos perguntamos o que diferencia o normal do patológico, todavia há uma pergunta que vai ajudar a responder todas as demais: afinal, o que há em comum entre o comportamento normal e o comportamento patológico? O que torna alguém psicopata?

Para ficar claro, é preciso entendermos que ao longo da história existiram diversas formas de explicar o comportamento humano, fosse ele considerado normal ou anormal, saudável ou patológico. O que é a loucura? Por muito tempo a Loucura era concebida como uma manifestação divina aos homens; na Idade Média, por outro lado, predominava uma interpretação demoníaca do desviante. Em meio a diversas mudanças econômicas e sociais, surgiu um novo campo na medicina dedicado ao tratamento de desordens comportamentais. Consideradas não mais uma manifestação de seres sobrenaturais, essas desordens teriam causa orgânica passível de tratamento médico (não mais espiritual). A Psiquiatria, então, passou a estudar o comportamento patológico que em algum nível causaria sofrimento ao sujeito e aos demais. Como consequência, categorias para definir estes comportamentos tornaram-se pertinentes uma vez que a observação clínica da frequência e intensidade dos sintomas poderia ser observada e descrita. “Mas, Anne, você está dando voltas e voltas e não vai direto ao assunto. Para que saber disso?”

Esse passeio rápido e superficial na história nos possibilita entendermos porque ainda é predominante uma análise mentalista do fenômeno psicológico. Ou seja, tem-se dito por muito tempo que o que causa o comportamento disruptivo (assassino, criminoso, violento) é uma mente doentia e que os distúrbios nesse “aparelho psíquico” determinaria comportamentos inadaptáveis. No entanto, há evidências suficientes que sustentam uma explicação não metafísica do fenômeno e com ênfase no papel ambiental: assim, como é na análise do comportamento "saudável",  é a nossa experiência no mundo ao longo da vida e as consequências que produzimos ao nos comportarmos que favoreceram a emissão de comportamentos considerados patológicos. Assim, o rompimento com uma tradição mentalista configurou avanços em estudos experimentais para respondermos a seguinte pergunta: Por que Kevin assassinara seus colegas, seu pai e sua irmã? Seria ele um psicopata sem sentimentos ou teria sentimentos e buscou vingá-los?




As respostas para essas perguntas devem ser analisadas sempre a partir do contexto em que evoluímos enquanto membros de uma espécie (filogênese), o contexto interpessoal em que estamos inseridos ao longo da vida (ontogênese) e o contexto cultural que favorece a nossa sobrevivência enquanto membros de um grupo (sociogênese). Esses três blocos de fatores nos auxiliam a compreender as causas do comportamento seja ele considerado patológico ou não. Ou seja, por mais que alguns comportamentos patológicos gerem surpresa por serem intensos, frequentes ou autodestrutivos, eles não são frutos de uma entidade metafísica que não podemos modificar. Não somos marionetes de um “aparelho psíquico” que está agindo sobre nossa vida: pelo contrário, somos ativos e responsáveis sobre ela. O que produzimos retroage sobre nós em um contexto que seleciona os nossos comportamentos. Portanto, antes de nos questionarmos se Kevin é ou não é um psicopata, devemos ter em vista de que a ênfase no papel seletivo do ambiente nos trará muito mais respostas do que a mera suposição de um eu iniciador inconsciente. Essas respostas podem ser detalhadas em trabalhos realizados pela Análise Experimental do Comportamento e Análise Aplicada do Comportamento. Ficou curioso para saber mais? Entre em contato conosco por e-mail ou comentário e poderemos sugerir uma lista de artigos e material sobre o assunto!

Munidos de uma introdução behaviorista sobre o comportamento patológico, estamos prontos para avançar. Mas, calma, o que vem por aí? Ah, aí você só saberá no próximo artigo! Fique ligado. ;)

Se você gostou desse artigo, comente aqui embaixo e compartilhe com seus amigos! Nos acompanhe também pelas redes sociais e aguarde novidades porque 


se é pop, a gente analisa!


Anne Maia



Nenhum comentário