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"Onde foi que errei?" Sobre pais, filhos e porque é tão difícil criá-los.


Obra: Os Simpsons
Formato: Série animada
Ano: 1989-atualmente
Produção: FOX
Roteiro: Diversos autores
Direção: Diversos diretores
Criação: Matt Groening



Uma das famílias mais famosas do mundo tem um pai bobo e beberrão, um filho indisciplinado e todos eles têm a pele amarela. Ela não existe no mundo real, e está longe de ser a família perfeita, mas aposto que você a conhece e a ama mesmo assim, afinal de contas, faz cerca de 30 anos que Os Simpsons está entre nós! Ela é uma das séries animadas mais longevas e de maior sucesso da TV. Ao longo de 3 décadas de história, muita coisa aconteceu com essa família. A cada novo episódio vivemos novas aventuras, confusões, soltamos muitas risadas e passamos por diversas aprendizagens. Cada episódio por si só é digno de uma análise completa, por isso já adianto que esta não será a primeira e última vez que os amarelões aparecerão por aqui. Mas, por enquanto, gostaria de convidá-los a vir comigo e mergulhar na leitura de sua 27ª temporada e, de forma específica, em seu episódio de número 09. 

No episódio "Barthood" (que faz uma paródia do filme Boyhood), acompanhamos Bart Simpson da infância à vida adulta e entendemos como foram instalados e mantidos os diversos comportamentos inadequados do personagem que conhecemos em outros episódios. Se você, assim como Marge Simpson, tem ou conhece alguém que tem um filho ou filha travessos igual ao Bart, já deve ter se perguntado ou visto outros se questionarem com a famosa frase: "Onde foi que eu errei?"

É muito comum que algumas crianças com um padrão de comportamento inadequado adentrem a adolescência e até mesmo a vida adulta com o mesmo padrão, apesar de que esse padrão pode ser modificado, especialmente se as intervenções corretas forem feitas desde a infância. Pais e mães se descabelam com o comportamento bagunceiro, desinteressado pelos estudos, agressivo ou até mesmo delinquente e criminoso dos filhos e se perguntam por que isso aconteceu com eles. Muitas vezes os pais não percebem a forma como reforçaram, deixaram de reforçar ou puniram seus filhos durante a criação e não enxergam que os comportamentos deles têm total relação com o comportamento dos próprios pais e dos ambientes que estão no entorno das crianças. Pra entender melhor esse tema tão complexo e consequentemente o episódio aqui tratado, vamos entender um conceito básico em Análise do Comportamento: o reforçamento diferencial. Segundo Moreira e Medeiros (2007, p. 61): "O reforçamento diferencial consiste em reforçar algumas respostas que obedecem a
algum critério e em não reforçar outras respostas similares." Em outras palavras: reforçar diferencialmente é reforçar algumas respostas e extinguir outras. Isso nos ajuda a entender como até mesmo irmãos criados na mesma família (ambiente) quando submetidos a contingências diferentes acabam se tornando tão distintos um do outro.  

                           

No episódio "Barthood", vemos a infância de Bart antes de sua irmã, Lisa, nascer. Bart era filho único. Quando pedia aos pais e avô para brincar, não obtinha reforçamento dos pais (atenção, carinho, brincadeiras). A ausência de reforçamento provoca gradualmente a extinção dos comportamentos de Bart relativos a pedidos por brincadeiras. Por outro lado ele recebia atenção e risos dos pais quando fazia travessuras. Percebam este ponto crucial na modelagem do comportamento de Bart: ao emitir comportamentos mais adequados (como pedir pra brincar, em tom de voz normal e educado), Bart não era reforçado, mas ao aprontar alguma das suas, sim. Sendo assim, qual comportamento é provável que ele continue a emitir com mais frequência?

Quando Lisa nasce, cresce e começa a se destacar por meio de sua inteligência, ela é reforçada com elogios do professor de Bart. O mesmo professor, por sua vez, pune Bart por ser um aluno não tão habilidoso quanto a irmã e diz que ele não terá um futuro brilhante. Esta punição ocorre por meio de palavras, mas são tão duras quanto um castigo físico. Ao invés de empreender algum esforço para modelar o comportamento de estudar de Bart, empregando reforço diferencial e aproximações sucessivas, a família e a escola não só punem as tentativas desses comportamentos, como reforçam os comportamentos inadequados do filho. Até agora na vida do garoto Simpson temos então: extinção e punição de comportamentos adequados ou de comportamentos que deveriam ser modelados (o que tende a diminuir tais comportamentos) e o reforçamento de comportamentos inadequados (o que tende a aumentar tais comportamentos).


Na cena seguinte, Lisa é reforçada pelos elogios da mãe, quando está pintando um quadro. Bart diz que também fez sua obra de arte... nas paredes da cozinha. Ele claramente está emitindo uma série de comportamentos em busca de reforço positivo, pois ele notou a atenção dada à sua irmã e, por modelação, fez o mesmo. Mas, mais uma vez, ele recebe punições, desta vez em forma de castigos físicos e ofensas de Homer, seu pai. Vejamos: Bart não foi reforçado por seu comportamento de estudar ou de pintar, pelo contrário, recebeu punições de alta magnitude. E nenhum organismo, da mais simples criatura unicelular ao complexo ser humano, consegue viver uma vida apenas recebendo tapas, críticas e xingamentos. Em algum momento precisamos de consequências reforçadoras; precisamos reconhecer e valorizar comportamentos desejáveis, não somente apontar as falhas do outro. Uma vez que ele não recebia atenção, afeto e elogios quando tentava ser assertivo, de que forma ele passaria a buscar tais reforços?

Ao entrar na adolescência, Bart aumenta a frequência da emissão de seus "comportamentos delinquentes", os únicos que foram reforçados ao longo de sua infância. Homer tenta recuperar o tempo perdido e iniciar uma aproximação com o filho, mas sempre sem sucesso - o que evidencia a falta de habilidade do pai para a criação do filho. Trata-se então não apenas de um filho que não sabe ser educado, mas de um pai que não aprendeu a educar. Homer parece não ter recebido um bom direcionamento quando era criança por parte de seu pai, o que acaba por criar um círculo vicioso que ele reproduz com Bart. 

Quando atinge a maioridade, Bart se torna um adulto sem muita perspectiva até que encontra seu lugar nas artes gráficas. Não atinge o mesmo patamar de sucesso que sua irmã, Lisa, de quem sempre guardou alguma inveja e ressentimento. Mas ao fim do episódio, por meio de seu trabalho artístico, acaba se reconciliando com ela e com sua família, mostrando que apesar do seu percurso na vida cheio de caminhos tortos, sempre é possível mudar. Sempre há tempo. 

                           

O reforçamento diferencial nos ajuda a entender como as pessoas são o que são ou como se tornam de determinada forma - não porque nascem más ou boas, violentas ou inteligentes por natureza, mas porque o ambiente assim as modela ao longo de suas histórias de vida. Nós também somos ambiente e nós também podemos modelar a nós mesmos e aos outros para sermos cada vez melhores. Afinal, como disse o professor Gérson Alves da Silva Jr: "Somos modelados e condicionados o tempo todo, por tudo e por todos. A diferença e a sabedoria está em como, pelo o quê e por quem vamos escolher ser condicionados e modelados."

Gostou do texto de hoje? Então deixa seu comentário, sua opinião, seu relato se já passou por alguma experiência parecida e quais outras animações gostaria de ver aqui na AcPop. Os Simpsons certamente serão figurinha carimbada no site. Afinal... 




Se é pop, a gente analisa!


Elton SDL


REFERÊNCIAS
MOREIRA, M. B. MEDEIROS, C. A. de. Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007.

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