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Acredite: o amor da sua vida NÃO está à sua espera | Black Mirror #4




Obra: Black Mirror

Formato: Série

Temporada 4 e Episódio 4 - “Hang the DJ”
Ano: 2017
País de Origem: Reino Unido
Diretor: Tim Van Patten
Roteiro: Charlie Brooker
Produtora: Channel 4/Netflix


ALERTA: O CONTEÚDO DESSE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!
ALERTA 2: Pega um cafézinho, um chocolate e relaxa que hoje vamos discutir a relação! 😂

Já passou o tempo em que era preciso gastar horas procurando um conteúdo do nosso interesse na internet. O mesmo não é diferente na busca de parceiros utilizando de softwares e aplicativos simples que servem como verdadeiros cupidos, facilitando e muito a vida amorosa de jovens e adultos afim de encontros casuais. De algum modo, o sistema recolhe todas as informações de pessoas próximas a você e as suas, analisam e te apresentam alguém ideal baseado nas suas experiências anteriores registradas nesse ambiente virtual (Alô, Tinder!). Se você já usou esse aplicativo ou tem curiosidade sobre ele, se identificará com Hang the DJ.




O episódio Hang the DJ, considerado um dos favoritos da quarta temporada de Black Mirror, retrata exatamente esse contexto: uma simulação virtual encurta o caminho para o encontro com a pessoa perfeita no mundo físico. Pasme: existe 99,8% de chances de que aquele par perfeito seja o tão sonhado homem ou mulher da sua vida. É nisso que Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) acreditam quando se encontram e é pelo amor desse casal que torcemos (cuidadosamente planejado pelo roteirista) desde o início do episódio, como em uma comédia romântica tecnológica (assim retratou o próprio diretor).

A contra gosto dos expectadores, o encontro desse casal carismático tem validade: o sistema de Inteligência Artificial desse aplicativo define o período de duração do relacionamento sob a explicação de que "tudo tem uma razão e é necessário para recolher dados e encontrar o amor perfeito". Nesse caso, Amy e Frank tiveram 12 horas para se relacionarem. Frank é a primeira transa de Amy e parece aflorar uma paixão que combina através de piadas, histórias bobas e carícias – o público já sabe, mas segundo o sistema, eles não são o par perfeito até então. O tempo acaba e tanto Amy quanto Frank se relacionam com outras pessoas durante alguns meses sob o mesmo regime e, em algum momento do episódio, se encontram novamente. O enfoque do uso abusivo de aplicativos e da tecnologia não foi retratado de modo negativo nesse episódio, pelo contrário, o desfecho é um final aparentemente feliz em que os personagens se conhecem no mundo real após um “Match” (Alô, Tinder!) com 99,8% de compatibilidade. Parece, então, que o sistema funciona. Um adendo interessante é que essa virada de roteiro (simulação → mundo real) nos faz perceber que os personagens simulados no “mundo virtual” dão vida aos algoritmos do mesmo sistema que hoje controla nossa permanência nas redes sociais: a seleção pelas preferências. Mas o fato é que essa tecnologia facilita a vida das pessoas que desejam encontrar parceiros ideais com praticidade e 99,8% de precisão. Se você observar, no entanto, não é de hoje que diversos sistemas culturais tentam delimitar o que seria um parceiro ideal, a diferença é que essa tecnologia seleciona a partir de suas experiências diretas com o mundo – mas não deixa de alimentar a crença do par perfeito. E é aí que reside uma temática pouco explorada no episódio.

O sistema “Tinder” evidenciado no episódio fortalece a ideia de um par ideal a ser encontrado que é muito semelhante a você. Embora o sistema prometa facilitar a vida de Amy e Frank no encontro com o par ideal, parece fragilizá-los na medida em que vende a ilusão de que alguém perfeito está a espera, pronto para ser encontrado e não conquistado. Por exemplo, observe que tudo ia aparentemente bem na relação entre Amy e Lenny (George Blagden) que duraria 9 meses, mas ao notar a presença de Frank, Amy vai ao seu encontro e desde então passa a desejar novamente sua presença. Nesse momento suspiramos e dizemos que “eles nunca se esqueceram!”. Pois bem, nas cenas seguintes, Amy começa a perceber “defeitos” em características que sempre estiveram presentes em Lenny, como um som que ele vocalizava e de repente passa a ser irritante. O que muitos de nós e Amy não percebemos é o que a fez mudar tão rapidamente e enxergar um defeito que antes simplesmente não parecia fazer diferença ou não era evidenciado pelo próprio diretor. 





Numa linguagem comportamental, diríamos que a presença de Frank naquele dia serviu como estímulo discriminativo para evocar lembranças reforçadoras que haviam sido prazerosas quando se relacionaram. Cairíamos na tentação de dizer que Lenny simplesmente não era o par ideal para Amy. Prefiro dizer, no entanto, que a presença de Frank alterou a percepção de Amy sobre sua relação com Lenny uma vez que, logo após entrar em contato com Frank, uma mera característica de Lenny tornou-se defeito e se tornaria insustentável. E assim o foi, 9 meses depois a personagem queria distância de Lenny, que permanecia o mesmo de sempre. Mesmo após vários relacionamentos curtos e casuais, Amy estaria insatisfeita. A insatisfação também era constante em Frank: permaneceu meses numa relação pouco interessante submetido à promessa de um par ideal, que seria encontrado após aquela experiência. O interessante é que o sistema possibilita que Amy e Frank se encontrem novamente e passem um tempo juntos, mas logo algumas características de Amy (como passar a questionar a ideia de um par perfeito dito pelo sistema) passam a ser incômodas à Frank, fazendo-o querer visualizar através do aplicativo quanto tempo ainda teriam juntos.


Essas idas e vindas do casal são pouco exploradas no episódio mas demonstram um aspecto significativo das relações que se retroalimenta: na simulação e na vida real dos personagens, estes vivem na expectativa de encontrar alguém tão semelhante a si mesmos, definitivo e ideal, que se tornam intolerantes a qualquer defeito do outro. Estão sempre insatisfeitos, querendo o melhor dos dois mundos. Amy disse em certo momento que o sistema a impedia de permanecer com Frank, esquecendo-se, no entanto, que em outro momento adorava a relação com Lenny, sentindo-se satisfeita e parecia não se lembrar de sua antiga paixão. Esqueceu, ainda, que somente passou a ver um defeito em Lenny antes não percebido quando em um momento anterior escolheu ir até Frank para conversar e reviver situações antes tão prazerosas. Para convencer Frank de romper o sistema, Amy escolheu responsabilizar o aplicativo e questionar o sistema em propor a ideia de um par perfeito, mas será que ela saberia manter um relacionamento e compreendia que uma relação é construção mútua, exige esforço, paciência e que não vem pronta como prometido?

O que fica ofuscado é que o ideal de amor perfeito serviu como uma ótima desculpa para que os personagens atribuíssem ao aplicativo a responsabilidade sobre suas relações. É difícil manter uma rotina de um relacionamento, perceber as mudanças no outro e lidar com as consequências das próprias escolhas, então é útil utilizar-se de um sistema que promete o parceiro ideal ao mesmo tempo que define data e hora de duração dos relacionamentos, como se fosse algo inevitável. O desenrolar dos diversos relacionamentos entre os personagens evoca uma reflexão pertinente: o esquema de manutenção de um relacionamento não pode ser baseado na expectativa de que haverá prazer e bem-estar entre o casal em todos os momentos, isso por dois motivos: primeiro, não existem relações saudáveis 100% perfeitas ou ausentes de conflitos, afinal, são pessoas diferentes em contextos diferentes que se relacionam, ainda que sejam 99,8% compatíveis. Segundo, não há parceiros ideais. O que existem são pessoas que tem características semelhantes às nossas que favorecem a manutenção do relacionamento, mas devemos tomar cuidado com promessas que tiram de nós a responsabilidade das nossas escolhas na manutenção desses relacionamentos ao nos confortarem com a ideia de que existe um amor pronto, perfeito e definitivo que será encontrado. Digo-vos, caro leitor, que esse é o segredo para ter um relacionamento saudável: é necessário abrir mão de alguns prazeres em detrimento de outros que nos somam; é necessário ser interessado, não apenas interessante.



Nesse sentido, vale ressaltar que sim, a tecnologia de algum modo está ao nosso favor: temos, de fato, a possibilidade de encontrar pessoas sem que isso se torne um tiro no escuro. A limitação óbvia desse recurso é que ele possibilita apenas encontrá-la, mas quem manterá e fará desse encontro uma relação saudável será você e seu parceiro, numa construção mútua visando somar cada um à vida do outro e compreendendo que as renúncias e os incômodos fazem parte da vida. Potencializar o que há de melhor e mais perfeito em nossos relacionamentos não deve ser uma tarefa do acaso, de um aplicativo ou do destino, mas uma escolha nossa de fazê-lo valer a pena. Se algoritmos nos apresentam quem aparentemente é compatível conosco, sejamos hábeis para manter este alguém cientes de que uma relação não existe sem avessos, de que não existe alguém perfeito e que também somos responsáveis pelo que cativamos. 

Existem outros aspectos que foram abordados no episódio mas o ideal do par perfeito merecia uma análise especial. Se você se identificou com o episódio e tem algo a comentar, fale conosco, porque

Se é pop, a gente analisa!

Anne Maia

Ps.: Ficou curioso? Assista o trailer da temporada! 



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