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Kill Bill: vingança, disciplina e autocontrole






Obra: Kill Bill: Volume 2
Formato: Filme
Ano: 2004
País de Origem: EUA
Roteiro: Quentin Tarantino
Direção: Quentin Tarantino
Produção: Lawrence Bender, Katsuji Morishita

(O artigo contém spoilers)


“Revenge is a dish best served cold”


Mais de 10 anos após o lançamento, Kill Bill continua um filme eletrizante, consumindo plenamente minha atenção a cada vez que o assisto. Consagrado como um dos melhores filmes norte-americanos recentes sobre vingança, triplicou em receita o valor orçado para sua realização e atribuiu a Quentin Tarantino o título de quase um rei das referências à cultura pop. O grande diferencial de Tarantino no cinema norte-americano é que “ele entrega exatamente o final que queremos, mas não da maneira que imaginávamos” (parafraseando Ritter Fan, em @planocritico). Quanto aos personagens, somos apresentados à Noiva (Uma Thurman), vítima de uma tentativa de assassinato no dia de seu casamento. O candidato a assassino, Bill (David Carradine), tornou-se alvo de quem a chamara “Beatrix Kiddo” - A noiva, internada em coma nos 4 anos seguintes à chacina. A drama é simples e objetiva: trata-se da trajetória sangrenta da protagonista em busca da execução de seu próprio assassino: Kill Bill. Composto por dez capítulos em ordem não cronológica (como costume do diretor) e lançado em dois volumes, o filme segue ritmo e foco próprios em cada volume, tornando-os quase independentes. Buscaremos analisar porque o treinamento de Beatrix foi fundamental para o desenvolvimento de resiliência e persistência da personagem, fazendo-a alcançar seus objetivos cumprindo a tão almejada vingança. Mais do que um clássico do cinema pela sua estética, referências e narrativa singular, Kill Bill é uma história que tem muito a contar sobre nós mesmos!





Não sei se o mesmo aconteceu com vocês mas uma das cenas que me deixaram mais impressionada, de longe, foi a cena em que Beatrix é enterrada viva, no capítulo 8 - O treinamento cruel de Pai Mei. Ainda que sua saída da situação fosse altamente improvável, o flashback do treinamento com o mestre Pai Mei (Gordon Liu) me fez refletir e estabelecer um paralelo com o desenvolvimento de uma característica presente em qualquer pessoa que faz da própria vida um empreendimento: o auto-controle.






A noiva é uma matadora de aluguel enviada ao mestre Pai Mei para aperfeiçoar “os mistérios do Kung Fu”. Parece simples, mas a filosofia por trás do treinamento consiste não somente em torná-la capaz de lutar com um número grande de oponentes, mas de se colocar como aprendiz, controlando a ira e o medo. Dizem os mais antigos que para se tornar mestre é preciso saber ser discípulo! A cena em que a protagonista é enterrada viva e consegue escapar por meio de uma técnica aprendida com o mestre deixa-nos pasmos e até parece somente coisa de filme, mas como desenvolver um autocontrole semelhante? Será possível ou somente em ficção?

Somos programados para poupar energia. Persistência e resiliência são características que aprendemos ao longo do tempo, assim como aquele clímax da vida adulta ao qual chamamos de maturidade. Beatrix era uma lutadora extremamente habilidosa mas talvez lhe faltasse exatamente isso: a persistência e obediência. O mestre estava para ensinar que alguns reforçadores/benefícios a longo prazo podem ser ainda mais interessantes que os imediatos e que grandes batalhas se vencem quando se há respeito à hierarquia [vide Go Go Yubari (Kuriyama Chiaki) submissa a O-Ren Ishii (Lucy Liu) em nome de quem lutou até a morte; não a toa, O-Ren tornou-se a chefe da Yakuza, a maior organização criminosa do Japão]. Em geral, parece que temos uma clareza desse processo mas quando o que está em jogo é nossa própria vida ou de quem amamos, sem um treinamento adequado facilmente agiremos da forma mais primitiva possível, atacando ou recuando sem um controle dos próprios movimentos e pensamentos. Estamos falando de disciplina e autocontrole: mas como fazermos de Beatrix e Pai Mei mais que modelos ou inspiração para desenvolvermos esse repertório?





É a madeira que deve temer a sua mão, não o contrário

Pai Mei 


Não tem sido difícil encontrar todos os dias um amigo, profissional ou colega falando sobre motivação, esforço e disciplina. Pode até surgir um impulso imediato de fazer o mesmo, programar a tão sonhada vida fitness e poucos dias depois o plano ir por água abaixo. Isso acontece porque o repertório de autocontrole é aprendido, não nascemos com essa “força de vontade” a qual tantos se referem. A Análise do Comportamento elucida bem os procedimentos de aprendizagem desse repertório especial de comportamento através de dois tipos de esquema de reforçamento (em que as consequências mantém um padrão de respostas) poderosos, são eles o Esquema de Reforçamento Contínuo (CRF) (procedimento de instalação de certos padrões de resposta) e o Esquema de Reforçamento Intermitente (procedimento de manutenção). Esses esquemas diferenciados possuem variações que são capazes de modificar um padrão comportamental e nos tornar mais persistentes. Mestre Pai Mei sabia aplicá-los com a compreensão de que, sem aversivos, facilmente Beatrix se entregaria ao desconforto. Mesmo passando por um treinamento anterior de Kung Fu, ainda precisava dominar suas próprias emoções frente a recompensas de longo prazo, resistindo aos aversivos e preparando-se contra eles. Em nosso cotidiano, ainda que saibamos sobre os processos de aprendizagem, sem um profissional especializado (assim como aconteceu com Beatrix) dificilmente mudaremos de forma permanente e consciente nossos próprios comportamentos, isso porque estamos “imersos” nas contingências e sob controle de outros determinantes. Filmes como Kill Bill, no entanto, são como instrumentos que nos auxiliam nesse processo de autoconhecimento. 






Kill Bill é um exemplo interessante de como a disciplina, o contato com aversivos e reforçadores contingentes ao comportamento de Beatrix a tornaram resistente e a fizeram chegar ao seu alvo, recuperar sua filha e assassinar o maior dos assassinos com a técnica dos Cinco pontos que explodem o coração, cujo efeito parece óbvio. Sem o treinamento, seria muito mais difícil para Beatrix conseguir o autocontrole necessário para vencer tantas lutas.


Caso ainda não tenha assistido ao filme, dá uma olhada no trailer!



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Se é pop, a gente analisa!


Anne Maia



REFERÊNCIAS E LEITURA COMPLEMENTAR


Skinner, B. F. (1953/2003). Cap. 9 – Privação e saciação. In: ____,Ciência e Comportamento Humano. 11ª ed. São Paulo, Martins Fontes, pp. 155-175.

Skinner, B. F. (1974). Cap. 10 – O mundo interior da motivação e da emoção. In: ____, Sobre o Behaviorismo. São Paulo, Cultrix, pp. 129-143.

Miguel, C. F. (2000). O conceito de operação estabelecedora na análise do comportamento.Psicologia: Teoria e Pesquisa, vol. 16, nº 3.

Verneque, L.; Moreira, M. B.; Hanna, E. S. (2012). Motivação. Em M. M. C. Hubner & M. B. Moreira (Orgs.), Temas clássicos em psicologia sob a ótica da análise do comportamento. Rio de Janeiro: Koogan. p. 74-87

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