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Black Mirror e o paradoxo da felicidade ocidental #2




Obra: Black Mirror
Formato: Série
Ano: 2011
País de Origem: Reino Unido
Roteiro: Charlie Brooker
Produtora: Channel 4/Netflix

Muitos daqueles que vivem nas democracias ocidentais desfrutam de um grau razoável de fartura, liberdade e segurança. Mas eles têm o seu próprio problema. Apesar de seus privilégios, muitos estão aborrecidos, inquietos ou deprimidos. Não estão desfrutando suas vidas. Não gostam daquilo que fazem; não fazem aquilo de que gostam. Numa palavra, estão infelizes. Esse não é o problema mais sério no mundo, mas se poderia dizer que é premente. Algo semelhante ao estilo de vida atual no Ocidente é aquilo que a maioria das pessoas almeja desfrutar após ter resolvido seus outros problemas. Não existiria alguma coisa mais promissora para o futuro da espécie?


Skinner, 1987




Há mais de 30 anos o psicólogo B. F. Skinner escrevia reflexões sobre o que há de errado com a vida cotidiana no mundo ocidental. Mal sabia ele que uma série, décadas depois, retrataria tão bem os efeitos e contradições das práticas culturais ocidentais. Empolgados e afinados com a temática, não poderíamos dar prosseguimento à série de artigos sobre Black Mirror sem antes nos debruçarmos sobre o episódio 2 da 1ª temporada - Fifteen Million Merits.

A narrativa se passa num contexto high-tech onde uma colônia de pessoas sobrevive consumindo aplicativos, pornografia, propagandas fúteis e jogos enquanto passam todo o dia sentadas em bicicletas geradoras de energia, revertida em dinheiro e consumo. Basicamente, toda a comida é industrializada e a única diversão é exclusivamente virtual. O cenário nos incomoda facilmente quando somos expostos à vida monótona e aborrecida de Bing (Daniel Kaluuya) e a sua mais nova parceira Abi (Jessica Findlay) por quem se apaixona. Toda sua vida parece ganhar sentido quando encontra em Abi um talento promissor ao reality show formatado à la The Voice e American Idol.




Quando, enfim, proporciona à sua amada a oportunidade de sair da colônia e conquistar um espaço no reality, Bing percebe uma faceta das relações modernas mediadas pelos consumo e o dinheiro: a mercantilização e objetificação do corpo feminino através das produções pornográficas. O episódio parece apenas mais uma crítica à comercialização da vida e o efeito parece previsível, mas os produtores trataram de fazer esse episódio singular na medida em que o reconhecimento dessa realidade e a revolta do personagem é, também, absorvida pelo mercado e comercializada! 


Inúmeros aspectos técnicos e a dimensão filosófica do episódio têm sido retratados em diversas críticas, inclusive numa perspectiva psicanalítica sobre os personagens. A série foi tratada a partir da discussão sobre a negação da individualidade, a neutralidade humana impressa no modo de se vestir e agir da grande massa, além da espetacularização do cotidiano que gera entretenimento e alienação. Como a Análise do Comportamento pode contribuir para uma reflexão acerca dos sentimentos, frustrações e desejos que consomem os personagens ao longo do episódio? 


Para tratarmos sobre isso, recorreremos ao capítulo “O que há de errado com a vida cotidiana no mundo ocidental”, escrito por B. F. Skinner em 1987, mais especificamente a diferença entre efeito agradável ou satisfatório e efeito fortalecedor das consequências que se seguem ao comportamento (para uma compreensão mais detalhada acerca das contingências de reforçamento, revisite nossos últimos artigos e a leitura recomendada!). Skinner inicia uma reflexão pertinente sobre o paradoxo da saciação como sinônimo de felicidade e uma aparente insatisfação com a vida cotidiana. Parece que quanto mais prazer obtemos aparentemente mais insatisfeitos nos tornamos. Segundo o autor, grande parte do efeito fortalecedor das consequências de muitos comportamentos que emitimos em nosso cotidiano é perdido justamente porque nossa sociedade, mediada pelo dinheiro, fortalece contingências de efeitos agradáveis ao comportamento sem planejar contingências reforçadoras.


O ocidente é especialmente rico em coisas que chamamos de interessantes, bonitas, deliciosas, divertidas e excitantes. Essas coisas tornam a vida cotidiana mais reforçadora, mas reforçam pouco mais do que o comportamento que coloca a pessoa em contato com elas. Imagens bonitas reforçam olhar para elas; comidas deliciosas reforçam comê-las; atuações divertidas e jogos excitantes reforçam assistir a eles; e livros interessantes reforçam lê-los - mas nada mais é feito. Embora olhemos para uma estátua nua em parte porque a tendência de olhar para formas similares teve um papel importante na sobrevivência da espécie, olhar não tem mais tal efeito neste caso. Olhamos para uma pintura de Cézanne, mas não comemos as maçãs. Ouvimos um trecho da música de Smetana, mas não nadamos no Moldau. Efeitos reforçadores ocorrem, mas eles não são contingentes ao tipo de comportamento em relação ao qual as suscetibilidades de reforçamento se desenvolveram.



Essa análise está muito bem impressa no episódio em que Bing produz méritos/dinheiro sem fazer nada mais do que movimentar as pernas por horas de um único modo, assistir vídeos e movimentar as mãos. O autor nos chama atenção para um aspecto importante da sobrevivência ocidental (já bem vislumbrada em Tempos Modernos): os efeitos reforçadores são direcionados ao comportamento que facilita o consumo (apertar botões, sentar de frente à TV e observar) e não de produzir aquilo que se consome em sua totalidade. Por exemplo, somos o tempo inteiro direcionados ou “recompensados” em realizar algum tipo de ação, várias vezes durante o dia, da mesma forma e numa frequência específica, para acessar o direito de consumir por meio de uma moeda de troca, e não de produzir o que se consome mais diretamente (como as práticas da agricultura em que o alimento é fruto direto da produção total).

Marx havia tratado desse aspecto quando falou sobre a alienação do trabalhador; numa linguagem comportamental diríamos em outras palavras que, quando estamos estimulando uma criança a passar muitas horas frente ao videogame, assistindo séries, filmes e etc, o que estamos ensinando, na prática, é tão somente a apertar botões, simular uma fantasia e acumular informações. Veja, não estamos dizendo que não se aprende habilidades de raciocínio, senso crítico e acesso a informação; mas o que de fato estamos fortalecendo é o acesso aos produtos consumidos e não à produção dos mesmos, como a criação de um jogo, a seleção de material para produzir uma maquete ou seja lá o que envolva mais do que sentar e observar o tempo passar. Repito, isso não quer dizer que o que consumimos não nos ensina a pensar, refletir de modo crítico a vida, ou mesmo não nos incentiva a produzir (embora seja raro, mas Black Mirror é o maior exemplo disso!) mas o efeito prazeroso tende a ser ainda maior que o efeito fortalecedor de outros comportamentos que produzem sensações semelhantes mas que exigem um alto custo de resposta.


A excitação dos jogos, assim como a apreciação de coisas interessantes ou belas, também é algo que ocorre quando nada mais é feito. Quando compramos bilhetes de loteria, jogamos blackjack ou pôquer, operamos máquinas caça-níqueis ou jogamos roleta, fazemos uma quantidade muito pequena de coisas, um grande número de vezes. Cada jogada vencedora tem um efeito agradável, mas é esquematizado de tal forma que as conseqüências finais são quase sempre zero ou negativas. (No final, os jogadores têm que perder para que as empresas de jogos sejam bem sucedidas.) Nós gostamos de jogar, assim como gostamos de olhar e ouvir, mas só uma pequena amostra do nosso comportamento é fortalecida. Pode parecer impossível que alguém não apreciasse passar a vida olhando para coisas bonitas, comendo comidas deliciosas, assistindo a atuações divertidas e jogando roleta. Mas seria uma vida na qual quase nada mais seria feito, e poucos daqueles que foram capazes de experimentá-la têm sido notadamente felizes. O que está errado com a vida no Ocidente não é que ela tem reforçadores demais, mas é que os reforçadores não são contingentes aos tipos de comportamentos que sustentam o indivíduo ou promovem a sobrevivência da cultura ou da espécie. 



Não há como fugir desse cenário, necessariamente, mas longe de esgotar às reflexões pertinentes, deixo aos leitores a provocação: como poderemos fortalecer práticas de produção alternativas às práticas massivas de consumo? Ou melhor, o que temos feito para isso?












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Anne Maia


LEITURA COMPLEMENTAR

Skinner, B. F. (1987). O que há de errado com a vida cotidiana no mundo ocidental? Trad. Renata Cristina Gomes. Disponível em: http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/skinner/oque_ha_de_errado_com_o_mundo_ocidental3a.pdf

Skinner, B. F., & Vaughan, M. E. (1985). Viva bem a velhice: aprendendo a programar sua vida. São Paulo: Summus

ANDERY, M. A. Uma sociedade voltada para o futuro. Temas psicol., Ribeirão Preto , v. 1, n. 2, p. 23-30, ago. 1993 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X1993000200004&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 25 jan. 2018.


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