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Depressão: O que Game Of Thrones tem a ensinar sobre o tema?





Obra: Game of Thrones
Formato: Série de TV
Ano: 2011-atualmente
País de Origem: EUA
Produtora: HBO




Obs.: Leitor, nosso desafio é situar o contexto dos personagens somente com o objetivo de desenvolver uma leitura compreensível aos amantes e aos meros curiosos que nem assistem a série. Foge ao escopo desse artigo, no entanto, referenciar todos os eventos simultâneos e anteriores ligados indiretamente ao personagem na história.

Obs 2.: Este artigo pode conter alguns spoilers sobre a trama da série. Portanto, se não quiser ter algumas surpresas reveladas, é melhor pular do barco.




Deixe-me dar alguns conselhos, bastardo.
Nunca esqueça o que você é.
O resto do mundo nunca se esquecerá. Use isso como uma armadura
e isso nunca poderá ser usado para machucar você.”  — Tyrion Lannister


Theon (Alfie Allen), filho e único herdeiro de Balon Greyjoy tornou-se guarda, refém e protegido de Ned Stark após a rebelião de Balon contra Robert Baratheon. Um Greyjoy, das orgulhosas Ilhas de Ferro, criado pelo benevolente líder da nobre família Stark. Mas vamos direto ao ponto: Theon era um sujeito pretensioso e arrogante no início da série com um sorrisinho no rosto achando que era o rei do pedaço. Mas a vida desse jovem repleto de vaidade e autoconfiança sofre inúmeras reviravoltas. Uma série de eventos que envolve algumas brigas, diversas mortes e mais traições do que acontece em Brasília fez com que Theon Greyjoy passasse de “filho adotivo” dos Stark a príncipe de Winterfell. E ele viveu feliz para sempre, governando como um rei bondoso e justo. Só que não! Alô, estamos falando de Game of Thrones e não da novela das seis!
Após um período reinando as gélidas terras do norte, tendo a vida que pediu a deus (ou pelo menos a um dos muitos deuses que existem em Westeros), outro revés acontece e tudo muda. Theon, de lorde supremo volta a ser prisioneiro. Só que, dessa vez, seu captor não é nada benevolente como Ned Stark. E é nesse momento que entra em cena a figura de Ramsey Bolton – um dos personagens mais amados e odiados da série pelas inúmeras torturas cuidadosamente planejadas aos seus oponentes (não por acaso apelidou Theon de Reek – fedor – durante suas torturas físicas e psicológicas). Ramsey não é o único vilão da história, mas consegue produzir estragos na percepção de Theon sobre si mesmo. O fato é que nem Cersei, os White Walkers, Joffrey – o rei mais irritante de Westeros – ou qualquer outro vilão conseguiram incapacitar psicologicamente um oponente produzindo consequências duradouras como fez Ramsey Bolton. Isso porque a maior tortura configurou um ataque ao que de mais precioso o ser humano possui: o orgulho de si mesmo.


 

A resistência de Theon foi colocada à prova à medida em que Bolton proferiu o corte de suas partes íntimas, o intitulou menor e o tratou pior que a qualquer servo. Após esses episódios, Theon parece paralisar – em inúmeras outras cenas seguintes, sente dificuldade de opôr-se a líderes de posição e potencial semelhante ao de Bolton para destruí-lo. Mas por que Theon continuava a se submeter e durante muito tempo evitava conflitos, lutas ou mesmo qualquer enfrentamento mesmo depois de ter saído das garras de Ramsey? Era como se, mesmo depois de liberto das torturas de seu captor, tivesse ficado alguma espécie de trauma. Mas não é tão simples assim.
Você e eu não relembramos momentos dolorosos porque queremos ou porque escolhemos nos comportar dessa forma, aleatoriamente. Ou ainda: porque nosso eu irracional apita em nosso ouvido e dispara sensações desagradáveis. Não, não é isso. Nós relembramos momentos dolorosos porque nesse momento estamos vivenciando situações dolorosas semelhantes às que vivenciamos no passado (ainda que não percebamos diretamente) e nossa reação tende a ser a que nos possibilita, com maior probabilidade de sucesso, fugir de ameaças ou obter algum benefício inerente a preservação da vida. Theon passou por inúmeras situações aversivas em que todas as tentativas de fuga falharam. Em certo episódio, Theon chega a escapar do calabouço de Ramsey e foge com sua amante. Mas quando ele pensa estar finalmente livre, seu captor aparece e o prende novamente, revelando que tudo não passou de um jogo de pega pega. Assim, Theon aprende que, naquele contexto, não adianta tentar mais nada, porque nada vai dar certo.
Em palavras mais técnicas, dizemos que todas as respostas apresentadas por Theon não produziram qualquer alteração no ambiente, ou seja, não reduziram ou eliminaram a situação aversiva. Nada que ele fizesse mudava seu estado de tortura e humilhação. Como nenhum de seus comportamentos eliminava a situação aversiva, tornou-se frustrado, sentindo-se incapaz e as iniciativas para mudar aquilo que o desagradava já não eram mais frequentes. Curioso, não? Mas essa hipótese de explicação já foi submetida a testes experimentais? Vejamos um caso semelhante com outros mamíferos.


 

Um experimento clássico realizado em 1965 foi conduzido por Martin Seligman, um psicólogo estadunidense da Universidade da Pensilvânia. Dois grupos de cães foram colocados em duas jaulas conectadas a uma corrente elétrica que disparava um choque de tempos em tempos na intensidade suficiente para causar desconforto nos cães. No entanto, o grupo 2 tinha acesso a uma dispositivo que poderia desligar a corrente e eliminar o choque. Após a exposição a esses estímulos, Seligman os inseriu posteriormente em duas outras jaulas, ambas com um dispositivo de fácil acesso para desligar a corrente elétrica. O psicólogo observou que o grupo 2 rapidamente pressionou o dispositivo enquanto o grupo 1 não emitiu quase nenhuma resposta diante da estimulação aversiva. Tecnicamente, diríamos que o grupo 2 aprendeu, mediante exposição anterior com possibilidades de fuga, a eliminar o desconforto do choque elétrico agindo sobre o ambiente (acessando o dispositivo); ou seja, diríamos que seu comportamento foi contingente à eliminação do choque. Vários outros experimentos foram realizados posteriormente, inclusive com humanos. Sugere-se, então, que a exposição incontrolável à situações aversivas poderiam resultar num déficit comportamental específico; a esse fenômeno, Seligman e outros pesquisadores chamaram de Desamparo Aprendido. A situação lhe parece familiar? Será que o mesmo aconteceu com Greyjoy?
Uma das particularidades do ser humano consiste num repertório comportamental bem mais complexo em suas diversas formas de se comportar, mas existem procedimentos de aprendizagem padrão; observar as contingências (relações de dependência entre contexto e comportamento) pode nos permitir vislumbrar quais foram os procedimentos de aprendizagem de um fenômeno semelhante ao do desamparo aprendido, nos ser útil na prevenção de ocorrências semelhantes e na promoção de bem-estar humano. Vejamos o caso de Theon.
Ao longo das temporadas, podemos observar inúmeras situações posteriores ao convívio c/ Ramsey nas quais Theon paralisa durante alguns segundos aparentemente sem saber o que fazer para eliminar aquela situação. Podemos dizer que um contexto específico de sua história de vida o ensinou que suas ações não iriam eliminar o desconforto. Era como se Ramsey estivesse ao seu lado, gritando em seus ouvidos: “Não há fuga! Não adianta fazer nada!”. Além disso, a possibilidade de sofrer represálias de seus familiares por paralisar resultava em expressões ansiosas e angustiantes do personagem.
Mas, por que nos é útil pensar os comportamentos de Theon Greyjoy numa perspectiva analítico-comportamental? É uma questão de probabilidade e previsão. O arcabouço experimental, filosófico e aplicado da Análise do Comportamento sugere que para que um sujeito como Greyjoy possa reestabelecer a autoconfiança que ele exibia no começo da série, seria preciso se expor a algumas situações em que houvesse possibilidade de fuga e acesso a reforçadores positivos – algum tipo de consequência que aumentaria a probabilidade de emissão do comportamento, geralmente associado a uma situação de bem-estar. Somente assim Theon poderia sentir-se mais seguro por completo. (Bom, talvez não por completo já que algumas partes suas nunca voltarão.)
É justamente essa exposição da qual falamos que aparece na última temporada, em que o pertencimento de grupo – uma sensação poderosa que está relacionada a sobrevivência – é conquistado. Isso fica visível durante a luta em que Theon recorre aos subordinados da casa Greyjoy para salvar sua irmã, é tratado com desprezo e deboche mas mesmo assim luta fisicamente contra um dos guerreiros, matando-o. Ao final, exclama: “For Yara” (Por Iara).
A sensação de pertencimento estava sendo estabelecida aos poucos na medida em que lutar pela família era valorizado por todas as casas do reino, uma vez que sinalizava respeito, gratidão e, acima de tudo, era motivo de honra (Cersei que o diga!). Lutar pela família representa a própria vida e o reconhecimento social obtido por isso é inestimável. É um valor sobre o qual a maioria das casas não abriam mão (esse valor não surge do nada e merece um artigo a parte, que sairá logo logo!). Veja que curioso: a evolução de Theon se dá na medida em que vários acontecimentos, pessoas e situações em seu ambiente se modificam: Jon Snow o desafia a lutar ao lado dos Starks, Yara chora (em espera de uma atitude do irmão) mediante a ameaça de seu tio e soldados debocham de sua honra, o ignoram quando são solicitados e cospem em seu rosto. O ambiente mudara e ensinara que a vida de Theon não estava submetida somente à tortura dos inimigos mas, talvez, à luta pela sobrevivência de sua família. Observe: Theon aprendeu que lutar pela sua irmã significaria viver, pois diversas situações ambientais posteriores para além das torturas o ensinaram que viver só é possível na medida em que a família sobrevive.  A exaltação de Theon ao final da cena em que luta “em nome de Yara” demonstra um outro olhar, uma outra postura e é bem provável que na próxima temporada as posturas de enfrentamento e motivação do personagem sejam mais frequentes.


 

Você provavelmente nunca deu muita importância aos Greyjoy (e cá pra nós, um bando de gente fedida a peixe não tem lá muita graça), mas Theon tem um quê de especial:  seu comportamento mudou substancialmente durante as temporadas e o mais incrível, ao nosso ver, consiste nas mudanças no ambiente, físico e social, que foram fundamentais para que Theon renascesse e se tornasse em nome e sobrenome um verdadeiro Greyjoy. Mas por que Arya Stark, assim como Theon, também passou por uma série de eventos traumáticos e no entanto tomou um rumo diferente ao invés de entrar em desamparo aprendido? Curiosamente, não só Theon mudou durante as temporadas. Não por acaso abrimos este artigo com a citação de Tyrion, da casa Lannister. Ele é mais um personagem singular e controverso. Será que Tyrion tem algo de misterioso? Por que tão sábio? O que está por trás do amor e o ódio a esse e outros personagens de Game of Thrones?
Contaremos logo logo! Porque

Se é pop, a gente analisa!


Anne Maia e Elton SDL



REFERÊNCIAS E SUGESTÃO DE LEITURA

ALVES, G. Depressão: como lidar? Disponível em: https://goo.gl/6SDy2r

BANACO, R. A.; KOVAC, R.; MARTONE, R. C.; VERMES, J. S.; ZAMIGNANI, D. R. Psicopatologia. In: HÜBNER, M. M. C.; MOREIRA, M. B. Fundamentos de. Psicologia: Temas clássicos de psicologia sob a ótica da Análise do. Comportamento. Ed: Guanabara Koogan, 2012.

RAFAELLE, C. Depressão: você compreende o que seja? Disponível em: https://goo.gl/6Gs2C2

Seligman, M. E. P., & Maier, S. F. (1967). Failure to escape traumatic shock. Journal of Experimental Psychology, 74, 1-9.

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